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Centro Histórico de São Luís: quatro lugares que quase ninguém vê

·7 min de leitura·por Helio Pere
Centro Histórico de São Luís: quatro lugares que quase ninguém vê

A escadaria estava tomada. Trio elétrico tocando perto, gente descendo, gente subindo, gente parada no meio dos degraus tirando foto. Eu tinha chegado no Beco Catarina Mina pra gravar e passei um tempo só esperando a multidão abrir uma brecha.

Voltei lá outras vezes. Numa delas ficamos até anoitecer, quando as luzes do casario se acenderam e o centro ficou ainda mais bonito do que era de dia. Passamos por esse beco tantas vezes que ele virou ponto de referência da nossa semana em São Luís.

Quatro paradas e um aviso

Muita gente passa o dia inteiro no Centro Histórico de São Luís e volta pro hotel sem ver os quatro lugares mais bonitos dali. Todos ficam colados, dá pra fazer a pé, e cada um tem uma história que o cartão-postal não conta. Tem também uma parte desse passeio que ninguém filma e quase ninguém escreve. Essa eu deixei pro fim.

A rua dos azulejos

A Rua Portugal é a primeira da lista. Casarões de três andares, fachadas inteiras cobertas de azulejo português, aquele conjunto que rendeu à cidade o apelido de cidade dos azulejos. Você anda cem metros e parece que atravessou pro outro lado do Atlântico sem pagar passagem.

Ela também é chamada de Rua do Trapiche, porque era o caminho que descia até o antigo porto. E os azulejos não estavam ali só por enfeite. A técnica portuguesa de revestir a fachada ajudava a refletir o sol e segurar o calor do lado de fora. Numa cidade em que o sol castiga do jeito que castiga em São Luís, isso era engenharia, não decoração.

Trinta e poucos degraus

O Beco Catarina Mina liga a Avenida Pedro II à Travessa da Alfândega, ali perto dos muros da Câmara Municipal. A escadaria é de pedra lioz, material caro, dos que Portugal usava em palácio e chafariz. Só o fato de ter sido gasto numa escada de beco já diz o tamanho do dinheiro que passou por aqui no tempo do algodão e do porto cheio.

O nome vem de Catarina Rosa Pereira de Jesus, escravizada vinda da região da Costa da Mina, na África, que juntou dinheiro, comprou a própria alforria e virou proprietária de imóvel no beco. Em 1930 o logradouro foi oficialmente rebatizado de Rua Djalma Dutra. Ninguém chama assim. Vale registrar uma coisa que os guias costumam pular: quase tudo o que se conta de Catarina veio da tradição oral, e não de documento. As fontes também divergem no básico. Umas falam em 33 degraus, outras em 35; umas datam a escadaria do século XVII, outras do XVIII. Dá pra conferir na página do beco e em reportagens locais que contam a mesma história com números diferentes. Conte você mesmo, se tiver paciência e a escadaria estiver vazia.

A ladeira do giz

A Rua do Giz é o cenário mais marcante do centro inteiro, na minha opinião. Ladeira, escadaria de cantaria com 32 degraus, casarão atrás de casarão. Já foi corredor de banco e endereço de gente rica, já foi zona boêmia, já serviu de locação de novela.

O apelido tem explicação simples e boa: antes do calçamento, o chão era de argila esbranquiçada, tipo tabatinga, escorregadia na chuva e parecida com giz. Em 1865 a Câmara batizou a via de 28 de Julho, em referência à adesão do Maranhão à Independência, em 1823. O povo continuou chamando de Rua do Giz. A Assembleia Legislativa do Maranhão tem uma reportagem boa sobre isso, com o geógrafo explicando por que nome de lei quase nunca pega.

Dentro das Tulhas

O quarto lugar é o que quase ninguém coloca no roteiro: o Mercado das Tulhas, na Praia Grande, também conhecido como Casa das Tulhas ou Feira da Praia Grande. Nós entramos, olhamos preço de tudo, gravamos. Tulha quer dizer depósito de mantimento, e era isso mesmo no começo do século XIX: um celeiro público onde o lavrador guardava e vendia. A construção circular que está de pé hoje começou em 1855 pela Companhia Confiança Maranhense e ficou pronta em 1861. Tem quatro entradas, as principais pela Rua da Estrela e pela Rua Portugal.

Lá dentro tem farinha d'água, castanha, tempero, doce regional, tiquira, o famoso Guaraná Jesus e artesanato de buriti. Preço de mercado, não de loja de aeroporto. Na entrada, quem me pegou foi o Seu Gervásio, conhecido como Bem-ti-vi, vendendo sorvete de bacuri, de tapioca e o que ele chama de "calmante", que é o de maracujá. Era pra ser entrevista e virou show: ele improvisou uma música misturando os sabores do carrinho dele comigo e com o Paraná. A cidade tem estátua na Praça Nauro Machado homenageando os pregoeiros antigos, entre eles um sorveteiro Bem-te-vi. Se é o mesmo senhor, não dá pra afirmar aqui.

O que ninguém filma

Agora a parte que não sai em vídeo promocional. No dia mais cheio, com trio elétrico e gente por todo canto, contei uns seis ou sete homens urinando no muro do centro histórico. Numa das escadarias, uma mulher se abaixou e fez o mesmo na frente de todo mundo, coberta só por uma toalha que outras pessoas seguravam em volta. Policiamento tinha, mas pouco pra tanta gente.

Rapaz, dói ver isso num conjunto que é Patrimônio Cultural da Humanidade desde 1997. E não é maldade do povo, é falta de banheiro público em evento grande. Escrevo aqui porque quem vai com criança ou com câmera na mão merece saber antes. Depois, quando a chuva chegou e não parou mais, boa parte da multidão foi embora e o centro voltou a ser aquele lugar de andar devagar.

O deslocamento também ajuda. Num dos dias fomos de ônibus até o centro e pagamos R$ 8,40 pelos dois. Almoço numa transversal da Rua Grande saiu por doze reais cada um, e a comida estava muito boa. Passeio bonito e barato ao mesmo tempo não é coisa comum.

Se você for fazer esse roteiro a pé, olha isso aqui
  • Os quatro pontos ficam a poucos minutos um do outro; dá pra fazer tudo caminhando, sem táxi no meio
  • Calçado firme resolve metade do problema: as ladeiras são de pedra e ficam escorregadias na chuva
  • O melhor da luz para foto é o fim de tarde, entre 16h30 e 17h45
  • Fique até acender a iluminação do casario; o centro muda de cara depois que escurece
  • Em dia de evento com trio elétrico, banheiro público é problema sério; programe-se

Separei também o que dá pra fazer em cada parada, pra você não ficar só passando e fotografando.

O que fazer em cada um dos quatro lugares
  • Rua Portugal: caminhe olhando para cima; os melhores azulejos estão no segundo e terceiro andar das fachadas
  • Beco Catarina Mina: além da escadaria, há lojas de artesanato, bares e um museu instalado em casarão histórico
  • Rua do Giz: desça a escadaria de cantaria devagar e observe o conjunto de casarões a partir da parte de baixo
  • Mercado das Tulhas: entre pela Rua da Estrela ou pela Rua Portugal e reserve tempo para comparar preços de farinha, castanha, doces e artesanato
  • No entorno há museus civis e centros culturais; muita atração do centro fecha às segundas, confirme o funcionamento antes de montar o dia

Foram três idas ao Centro Histórico em uma semana. Numa delas fiz oito gravações programadas e saí de lá cansado, com o cartão cheio e o drone Mangabinha guardado. Na última, com chuva, subi a ladeira devagar e não filmei quase nada. Foi a que eu mais gostei.

Aí que tá: em São Luís a melhor parte do passeio costuma aparecer quando você dobra a esquina sem estar procurando nada. Vá com tempo. Entre nas travessas.

E você, se for ou já foi, qual desses quatro te pegou mais: os azulejos da Rua Portugal, a escadaria do Beco Catarina Mina, a ladeira da Rua do Giz ou o corredor de bancas do Mercado das Tulhas?

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