Fiação subterrânea em Curitiba: o projeto que pode mudar a cidade

As fotos que eu mais gosto de Curitiba têm uma coisa em comum, e eu levei cinco anos pra perceber. Jardim Botânico, Parque Tanguá, Barigui, Ópera de Arame. Em nenhum desses lugares tem uma fileira de postes e cabos atravessando o céu bem na hora da foto.
A ficha caiu esta semana, quando apareceu no meu feed um vídeo comparando ruas da capital com e sem fiação aérea. Minha primeira reação foi desconfiar. Internet, você sabe como é. Fui procurar as informações e descobri que o projeto existe mesmo, embora ainda esteja bem longe de transformar Curitiba numa cidade sem fios.
Curitiba pretende enterrar até 120 quilômetros de cabos elétricos e de telecomunicações, começando por áreas prioritárias do anel central. A proposta está avançando na contratação do BNDES para estruturar uma parceria público-privada, mas ainda não existe data para o começo das obras.
O que existe hoje, sem exagero
A primeira reunião divulgada pela Prefeitura aconteceu em junho de 2025. Na época, Curitiba e o BNDES discutiram a possibilidade de desenvolver um projeto-piloto para colocar redes elétricas e de telecomunicações no subsolo.
Era uma conversa inicial. O próprio município deixou claro que o projeto ainda estava começando e que o banco estudava modelos que pudessem ser aplicados em áreas centrais de cidades brasileiras.
Em novembro de 2025 houve outra reunião, dessa vez com representantes da Prefeitura, do BNDES, da Copel e da Pars, empresa municipal voltada para concessões e parcerias público-privadas. A expectativa naquele momento era assinar um contrato para iniciar os estudos de viabilidade e a modelagem do projeto.
Já em 14 de julho de 2026, o assunto foi apresentado durante uma oficina sobre cabeamento aéreo realizada na Fiep. A Prefeitura informou que a contratação do BNDES estava bastante adiantada e confirmou a intenção de enterrar até 120 quilômetros de cabos.
As prioridades seriam vias pavimentadas em regiões mais adensadas, turísticas, históricas ou que enfrentam mais problemas quando temporais derrubam árvores e interrompem o fornecimento de energia.
Rapaz, traduzindo pro português de quem viaja: existe projeto, existe discussão técnica e existe uma intenção bem definida. O que ainda não existe é máquina abrindo rua, cronograma de obra ou previsão de quando a paisagem vai começar a mudar.
Um trecho já mostra parte da diferença
Uma coisa que eu não sabia é que Curitiba já tem exemplos de infraestrutura subterrânea na região central.
Na Rua Voluntários da Pátria, os cabos de energia foram colocados no subsolo durante uma revitalização ligada ao programa Rosto da Cidade. Isso não significa necessariamente que desapareceu qualquer fio aéreo do trecho, porque energia e telecomunicações nem sempre são transferidas ao mesmo tempo.
Mesmo assim, já dá pra observar como a retirada de parte da rede muda a leitura da rua. A fachada aparece melhor, o campo de visão fica mais limpo e o olhar vai para os prédios, não para o poste plantado bem no meio da calçada.
Por que isso interessa a quem viaja
A justificativa oficial não é só estética. A rede subterrânea pode reduzir riscos de acidentes e incêndios, dificultar furtos de cabos e proteger parte da infraestrutura contra temporais, árvores e outros problemas que provocam apagões.
A melhora da paisagem urbana vem junto. E essa parte interessa bastante a quem passa o dia fotografando e gravando cidades.
Você encontra uma fachada bonita, espera a luz ficar boa, escolhe o enquadramento e, quando levanta a câmera, tem um cabo atravessando a imagem na altura da janela. Dá dois passos pro lado e aparece o poste. Anda mais um pouco e encontra outro cabo.
Normalmente eles trabalham em equipe.
Em Curitiba isso chama atenção porque a cidade tem construções e áreas históricas que merecem ser vistas por inteiro. No Centro, cabos de energia, telefone e internet acabam dividindo espaço nos mesmos postes. Em alguns pontos, a fachada está lá, bonita e cheia de detalhes, mas o primeiro plano parece uma teia montada sem muita conversa entre os envolvidos.
Setembro de 2021: a Curitiba que ficou nas fotos
Minha primeira viagem a Curitiba foi num feriado prolongado de setembro de 2021. Saímos de Cascavel de carro, eu e minha digníssima, e ficamos no Hollyster Hotel pagando R$ 165,60 pela diária.
Hotel bom, preço justo e sem história complicada pra contar. Às vezes isso já é uma vitória.
Passamos pelo Jardim Botânico, Parque Tanguá, Parque Barigui e Ópera de Arame. No Museu Oscar Niemeyer, a visitação interna estava fechada, então ficaram apenas as imagens da área externa.
📍 Parque Tanguá - Curitiba - PR
Abrir no Google MapsComo chegarVoltei dizendo que Curitiba era uma das cidades mais bonitas que eu já tinha visto no Brasilzão. Continuo com a mesma opinião.
📍 Parque Birigui - Curitiba - PR
Abrir no Google MapsComo chegarSó agora percebi um detalhe. Boa parte das imagens que formaram essa impressão foi feita em parques, jardins e atrações isoladas da rede viária. São lugares onde os postes não disputam espaço com as árvores, os prédios e o céu.
📍 Museu Oscar Niemayer
Abrir no Google MapsComo chegarA memória de uma Curitiba limpa e organizada veio também do roteiro que a gente escolheu. Nos parques, a cidade já tem um pouco da paisagem que o novo projeto promete levar para algumas ruas centrais.
Também ficou uma lembrança menos simpática. À noite, andando pela região central próxima ao hotel, eu não me senti confortável. É uma impressão pessoal daquela viagem, não uma sentença sobre a cidade inteira. Mesmo assim, eu não escolheria caminhar por ali com câmera e equipamento à mostra.
Abril de 2026: pela Linha Verde e com pressa
Passei novamente por Curitiba em abril de 2026, numa viagem que terminava no show do Alceu Valença, na noite de 25 de abril. Entramos pela região de Araucária e seguimos pela Linha Verde, avenida construída sobre o antigo trecho urbano da BR-116.
Gravamos algumas estações-tubo, inclusive a Santa Bernadete. Elas são uma das imagens mais reconhecíveis do transporte curitibano.
O sistema de ônibus expresso da cidade começou em 1974 e ajudou a popularizar o modelo que mais tarde ficou conhecido como BRT. A ideia foi reproduzida em centenas de cidades pelo mundo. Então, pra quem produz conteúdo sobre Curitiba, ônibus expresso, canaleta e estação-tubo acabam entrando no roteiro.
E os fios entram junto.
A Linha Verde é uma avenida urbana consolidada, com comércio, cruzamentos, iluminação, rede elétrica e telecomunicações. É justamente o tipo de lugar em que enterrar toda a infraestrutura exige planejamento, dinheiro e uma boa dose de paciência.
Naquela passagem também perdemos um bom tempo no trânsito tentando sair da capital. Teve desvio e ainda teve erro no GPS. Em vez de procurar a Estrada da Graciosa, digitamos Rua Serra da Graciosa, que existe dentro de Curitiba.
Chegamos numa rua comum. Serra, nenhuma.
Fio no céu tinha.
A conta estimada em R$ 1,2 bilhão
Enterrar cabos numa cidade pronta custa caro. A estimativa apresentada pela Prefeitura em julho de 2026 foi de R$ 1,2 bilhão.
Não é simplesmente cavar uma vala e jogar o fio lá dentro. É preciso abrir a via, instalar dutos e galerias, criar acessos para manutenção e trabalhar perto de redes de água, esgoto, drenagem, gás e outras estruturas que já ocupam o subsolo.
Depois vem a parte que quase ninguém fotografa: licenciamento, contrato, responsabilidade de cada empresa, manutenção futura e a divisão da conta entre o poder público, concessionárias e operadoras.
Por isso a proposta está sendo pensada como parceria público-privada e executada por trechos prioritários. Fazer tudo de uma vez seria uma conta pesada até para uma capital com orçamento grande.
Os desafios regulatórios e econômicos foram reconhecidos pela própria Prefeitura. Isso não significa que o projeto vai parar, mas também não combina com promessa de cidade sem fios daqui a pouco.
Projeto urbano anda no ritmo dele. Estudo demora, contrato demora, licitação demora e obra no centro de cidade demora mais um pouco, principalmente quando cada quarteirão já tem meio mundo escondido debaixo do asfalto.
Dicas para Visitar Curitiba
- Para fotografar as ruas e fachadas do Centro, prefira o começo da manhã ou o fim da tarde. A luz lateral ajuda a diminuir as sombras fortes dos fios sobre os prédios.
- Passe pela Rua Voluntários da Pátria para observar um dos trechos que já receberam fiação elétrica subterrânea.
- Jardim Botânico, Parque Tanguá, Parque Barigui e Ópera de Arame são boas opções para conseguir fotos com o céu mais limpo, sem tantos postes e cabos no enquadramento.
- Para conhecer um pouco do transporte curitibano, faça pelo menos um trajeto de ônibus e passe por uma das estações-tubo.
- No Centro à noite, evite caminhar distraído ou deixar câmera, celular e outros equipamentos muito expostos.
Não sei se vou chegar a fotografar o anel central de Curitiba com toda a fiação escondida. Antes disso ainda tem estudo, modelagem, contrato e muito asfalto pela frente.
Mas a ideia ficou anotada. No dia em que os primeiros trechos estiverem prontos, quero voltar com as fotos de 2021 no celular, encontrar os mesmos pontos e tentar repetir os enquadramentos.
Aí a comparação vai ser justa: mesma cidade, mesmo prédio e, com um pouco de colaboração, nenhum cabo atravessando o meio da foto.
Você já encontrou o enquadramento certo e perdeu a foto por causa de um fio ou poste? Em qual cidade aconteceu?
Fontes oficiais consultadas
As informações sobre o projeto foram consultadas nas publicações da Prefeitura de Curitiba sobre a reunião inicial com o BNDES, no acompanhamento divulgado em novembro de 2025 e na apresentação realizada na Fiep em julho de 2026.
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