Feira de Uberlândia: preços, doces caseiros e muito pequi

Domingo de manhã e a avenida estava irreconhecível. Durante a semana aquele trecho é corredor de ônibus, coisa séria, sinalizada, ninguém entra ali de carro. No domingo o ônibus some e a barraca aparece, de ponta a ponta.
Eu gosto de feira. Gosto de preço escrito na placa, gosto de vendedor falando alto, gosto de comparar o que muda de um estado pro outro. E em Uberlândia isso é fácil, porque tem feira em quase todo bairro. Fui parar na feira da avenida Monsenhor Eduardo com a Thaísa e a Marianny, minha sobrinha, e a manhã inteira foi ali, andando no meio do povo.
Feira boa é aquela que te faz parar sem querer
Teve barraca que me fez ler o preço duas vezes pra ver se estava certo. Teve um senhor que abriu pote por pote pra me mostrar o que fazia. Teve uma fruta que só aparece de seis em seis meses e guarda uma armadilha dentro do caroço. E teve, mais tarde, no centro da cidade, um picolé servido de um jeito que eu nunca tinha visto em lugar nenhum do Brasil. Vem comigo até o fim.
Feira em quase todo bairro
A cidade leva isso a sério. Segundo a própria prefeitura, são mais de sessenta feiras livres por semana, entre diurnas e noturnas, espalhadas por todas as regiões. Tem feira de terça, de quarta, de quinta à noite, de sábado cedo. Quem quiser conferir dia e endereço encontra a lista no site da prefeitura.
A da Monsenhor Eduardo é das tradicionais e acontece domingo pela manhã. A avenida liga a região norte ao centro e cruza com a Sérgio Pacheco, uma das principais da cidade. Então é feira de bairro com movimento de avenida grande. Estacionar por ali no domingo já é o primeiro exercício do dia.
O tal do sacolão misturado
A primeira coisa que me chamou atenção foi uma placa escrita de um jeito que eu nunca tinha visto: sacolão misturado, R$ 6,98. Do lado, outra placa, R$ 5,98. Perguntei como funcionava e o rapaz explicou: você escolhe acima de oito variedades, em partes iguais, e paga aquele valor pelo conjunto. Vagem, limão, pepino, maracujá, o que estivesse na banca naquele dia.
A cebola estava seis reais. Mais adiante, alface três por dez. Rapaz, pra quem vem do sul do país isso é preço de fazer conta na cabeça. A feira de domingo entrega um valor que o mercado da esquina não entrega, e a diferença dá pra sentir na sacola.
Queijo, goiabada e uma fruta fora do lugar
Parei numa barraca e perguntei quanto estava o queijo de Minas legítimo. Quarenta reais, me responderam, sem hesitar. Do lado, as goiabadas em barra, aquelas escuras, empilhadas feito tijolo. Doze reais. Goiabada em Minas é quase item de identidade, tem em toda feira, e ninguém trata aquilo como sobremesa fina.
E aí, no meio da banca, uma bandeja de lichia. Uma fruta asiática, casca vermelha e áspera, hoje plantada em várias regiões do Brasil, dividindo espaço com a goiabada mineira num domingo qualquer. Fiquei olhando aquilo um tempo. Feira mistura o que veio do sítio aqui do lado com o que veio de muito longe e não acha estranho.
Seu Wilson e os doces caseiros
O box dos doces é o tipo de lugar que segura a pessoa. Quem toma conta é o seu Wilson, Wilson Luciano, e ele faz o que vende. Perguntei quantos tipos de doce de leite existiam e a resposta veio em forma de tampa abrindo, um pote atrás do outro.

Tinha o doce de leite tradicional, aquele que é o pai de todos. Tinha o de abóbora, que ele chama de abobonada. Tinha um bem escuro, que eu jurei que era de chocolate e não era, era só o ponto mais puxado. Tinha o talhado, que eu conheci ali na hora. E tinha o de figo, dez reais um, quinze o outro, com o aviso honesto do próprio vendedor de que a conserva do figo não dura tanto quanto a dos demais.
Fiz a conta do que sairia se eu levasse tudo o que provei: dava uns R$ 77. Brinquei com ele que ia sair dali com tudo de graça, em troca da propaganda. Ele riu. No fim, saí de mãos abanando, sem comprar nada, o que hoje eu acho que foi um erro.
Se você for na feira de domingo, olha isso aqui
- Vá cedo. Depois das dez o movimento nos boxes de doce e queijo dobra
- Leve dinheiro trocado. Muita barraca tem maquininha, mas o troco resolve mais rápido
- Pergunte como funciona o sacolão misturado antes de encher a sacola. Cada barraca tem sua regra de quantidade
- Doce de figo em conserva dura menos que os outros. Se for viajar, prefira o doce de leite ou o de abóbora
- Confira no site da prefeitura qual feira acontece no dia em que você estiver na cidade. São mais de sessenta
Passada a parte doce, veio a barraca que me deu mais conversa na manhã inteira.
O rei do pequi
Chamam ele assim mesmo, e ele não corrige ninguém. Daniel Gouveia trabalha na feira há dezoito anos e vende pequi, aquela fruta amarela de cheiro forte que divide o Brasil em duas turmas. Perguntei se podia experimentar e ele deixou.

O detalhe que muita gente de fora não sabe é que o caroço do pequi tem espinhos por baixo da polpa. Espinho fino, de verdade, que não perdoa mordida de quem come com pressa. Se come raspando com o dente, sem cravar. Quem é da região aprende isso criança.
Daniel explicou que a safra vem de seis em seis meses, então não é produto de banca o ano inteiro. E o cheiro, esse eu não sei descrever direito. É forte, ocupa o ar, avisa que chegou antes de você ver a barraca.
Pimenta a partir de treze reais
Existe coisa mais mineira que pimenta? A barraca tinha de todo tipo, em conserva, vidro pequeno e vidro grande. Treze reais um, dezenove o outro. O preço variava conforme o tamanho e conforme o tanto que você quisesse arder.
O camelódromo que sai e volta
Da feira a gente seguiu pro centro. Tem uma praça ali do lado do fórum de Uberlândia que já foi o ponto de encontro de todo vendedor ambulante da cidade. O antigo camelódromo. Quem viveu os anos noventa e o começo dos anos dois mil na cidade lembra da quantidade de barraca que se espalhava por aquele quarteirão.
Depois vieram as retiradas, com a alegação de segurança por ser vizinho do fórum. Tiraram, voltou. Tiraram de novo, voltou de novo. É um vai e vem que já virou parte da história do lugar. No dia em que passei por ali, algumas barracas estavam de pé outra vez.
Do outro lado, o ponto de táxi. Tradicional, daqueles que existiam muito antes de aplicativo de carro entrar na vida de todo mundo. É uma região emblemática pra quem trabalha no comércio popular da cidade, e dá pra sentir isso só de atravessar a rua.
Um terminal com shopping em cima
Logo à frente está o Terminal Central, oficialmente Terminal Paulo Ferolla da Silva, inaugurado em 1997 junto com o sistema integrado de transporte da cidade. É um dos maiores terminais urbanos que eu já vi em cidade brasileira, e o que me impressiona não é o tamanho.
É o aproveitamento. Embaixo ficam as plataformas de ônibus. Em cima funciona o Pratic Shopping, um shopping popular com lojas de tudo quanto é ramo, praça de alimentação, banco, caixa eletrônico, correios e lotérica. A pessoa desce do ônibus, resolve a vida e volta pra plataforma. Passam centenas de milhares de pessoas por ali todos os dias.
Dali se chega à avenida Afonso Pena, uma das principais do centro.
Vinte reais o almoço e um picolé com sal
Almoçamos no centro por vinte reais por pessoa. Comida caseira mineira de verdade, com aquele tempero que a gente reconhece na primeira garfada, e um guaraná mineiro pra acompanhar. Pro padrão de cidade grande, foi barato. Pro padrão de comida boa, foi barato duas vezes.
A Marianny quis experimentar um Guaraná Jesus, aquele refrigerante rosa que nasceu no Maranhão e hoje aparece Brasil afora. Aprovou.
Mas a cena que eu levei do centro foi outra. Na Praça Tubal Vilela tinha um senhor vendendo picolé, e junto com o picolé ele oferecia sal. Sal mesmo. O de cajá quase sempre vai com uma pitadinha por cima, e pelo visto todo vendedor de picolé de lá carrega o sal pra oferecer. Olha só, eu já rodei bastante estrada nesse Brasilzão e essa combinação eu não tinha visto ainda.
O que dá pra fazer em Uberlândia sem gastar quase nada
- Parque do Sabiá: área verde enorme, lago, pista de caminhada e apresentações musicais em fins de semana
- Praça Tubal Vilela e Praça Clarimundo Carneiro: as duas ficam no centro e rendem um bom passeio no fim de tarde
- Praça Sérgio Pacheco: a maior da cidade, com quadras, pista de caminhada e programação aos domingos
- Terminal Central e Pratic Shopping: vale entrar mesmo sem pegar ônibus, só pra ver como a cidade aproveitou o espaço
- Almoço em restaurante popular no centro sai por volta de vinte reais por pessoa
- Se aparecer vendedor de picolé na praça, aceite o sal. É assim que se come por lá
- O centro tem muito movimento. Cuidado com celular e carteira, como em qualquer centro grande
Uberlândia é uma cidade que muita gente conhece só de placa de rodovia, de tanto que ela aparece no caminho de quem cruza o país. Quem para num domingo de manhã encontra um lugar que ainda funciona no ritmo de feira, com o preço na placa e o vendedor explicando o que é cada coisa.
O cheiro forte do pequi é o tipo de coisa que fotografia nenhuma leva embora. Aquilo fica com quem estava lá.
E você, já comeu picolé com sal por cima, ou isso aí é coisa que só existe em Minas mesmo?
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