Os Urubus do Ver-o-Peso: Símbolo de Belém ou Problema Antigo?

A gente desceu pro lado do Ver-o-Peso de manhã cedo, ainda com aquele cheiro de maresia misturado com peixe, e a primeira coisa que vi não foi o mercado, foi urubu. Muito urubu. Em cima do telhado, no chão da feira, no poste, na fiação. Minha digníssima parou do meu lado, olhou pra cima e soltou na hora: "Gente, como é possível que uma cidade tenha tantos urubus?". Eu não soube responder. E fiquei com essa pergunta atravessada o dia inteiro.
Onde: Mercado Ver-o-Peso, Belém do Pará, na beira da Baía do Guajará, do lado da Estação das Docas.
Quando fomos: Agosto de 2024.
O que mais chamou atenção: a quantidade absurda de urubus convivendo com gente no meio de uma metrópole, não só na beira do rio, mas nas praças e voando por cima de tudo.
A pergunta que ficou: por que até hoje ninguém resolve isso de verdade?
Não é só na beira do rio
Eu já tinha visto foto do Ver-o-Peso com urubu, todo mundo já viu. Mas uma coisa é a foto, outra coisa é estar ali no meio. Quando você anda pela feira, eles estão perto de você, sem medo nenhum, como se fossem pombo de praça de cidade do interior. A diferença é que pombo é pequeno e meio bobo. Urubu é grande, escuro, fica te olhando de lado com aquele jeitão de quem manda no pedaço.
E o que eu não esperava era ver eles longe da água também. A gente acha que urubu do Ver-o-Peso fica só ali na beira, catando resto de peixe. Não fica. Eu vi urubu em praça, em árvore de calçada, parado em mureta no meio do movimento, e voando em bando por cima dos prédios. É de parar pra olhar. No meio de uma cidade grande, cheia de gente, de carro, de comércio, e aquele tanto de bicho preto cortando o céu. É uma das coisas mais diferentes que eu já vi no Brasil inteiro, e olha que eu já rodei bastante.
Por que existe tanto urubu bem ali?
Fui atrás de entender, porque não dá pra escrever só do que a gente sentiu, tem que saber o porquê. E o porquê não é bonito. Urubu não aparece por acaso. Ele vai onde tem comida fácil, e comida fácil ali sobra. O Ver-o-Peso é a maior feira a céu aberto da América Latina, é peixe, é fruta, é tudo que se imagina sendo vendido o dia todo. No fim do expediente sobra muito resto, e boa parte desse resto não tem pra onde ir direito.
Some a isso o lixo que se acumula e, principalmente, o esgoto. Belém é uma cidade onde a maior parte do esgoto não recebe tratamento. Quer dizer, sai sujeira pra valer perto da água, perto da feira, perto de onde o povo trabalha. Pra um urubu, isso não é problema, é convite. Enquanto tiver resto e sujeira sem destino, vai ter urubu. Eles são só o aviso de que tem coisa errada embaixo. O bicho não é o problema, ele é o sintoma.
A população diz que eles limpam, mas limpar é trabalho de quem?
Conversando e lendo depois, eu vi que muita gente em Belém tem um carinho meio resignado com os urubus. Falam que eles fazem o serviço de limpeza, que comem o que ia apodrecer, que ajudam a cidade. E até é verdade, o urubu cumpre o papel dele na natureza, isso ninguém discute. Mas é aí que eu paro e penso de novo.
Limpar cidade não é serviço de urubu. É serviço de gestão pública. Quando a gente normaliza que um bando de bicho está fazendo a faxina que deveria ser feita por coleta de lixo, por tratamento de esgoto, por saneamento de verdade, a gente está aceitando que o Estado não apareceu. O urubu só está cobrindo um buraco que ficou aberto. Ele não está ali porque a natureza quis, ele está ali porque faltou cuidado de quem é pago pra cuidar.
E aí vem a parte que mais me incomoda. Faz tempo que se fala disso. Não é novidade pra ninguém. Reportagem antiga já mostrava, morador reclama, turista estranha, e segue do mesmo jeito. Se fosse coisa de um mês, tudo bem, problema acontece. Mas anos e anos com a mesma cena é outra história. Aí não é falta de saber, é falta de prioridade. A pergunta certa não é "por que tem urubu", é "por que deixaram chegar nesse ponto e por que continua assim".
Virou paisagem e até música
Uma coisa curiosa que descobri é que o urubu de Belém entrou tanto no dia a dia que virou cultura. O povo fez música, fez piada, deu apelido carinhoso, tem até o tal do "urubu malandro" cantado por gente da terra. Isso mostra o jeito do paraense de levar a vida, transformando até o que é problema em prosa boa e em samba. Eu respeito demais isso. Mas ao mesmo tempo é um sinal de que o bicho já está tão enraizado na rotina que ninguém mais estranha. E quando a gente para de estranhar, para de cobrar.
Aí veio a tal da reforma da COP30
Quando começamos a pesquisar mais a fundo, caímos numa parte que explica muita coisa. Belém foi escolhida pra sediar uma conferência mundial do clima, a COP30, e por causa disso a cidade entrou numa reforma grande, justamente na região do Ver-o-Peso e arredores. Mexeram em barraca, em calçamento, em esgoto, em estrutura que estava precisando de atenção havia tempo.
Eu fico feliz pela cidade, de coração, porque o povo de lá merece o melhor e o Ver-o-Peso merece ser cuidado. Dá gosto ver um lugar tão importante recebendo investimento e ganhando uma cara nova. O que eu torço é pra que essa reforma tenha vindo pra ficar, e não só pra durar o tempo do evento. O morador convive com aquilo todo dia, e é ele quem mais merece colher o resultado no fim.
A hora de subir o drone
Eu queria muito uma imagem de cima daquilo tudo, pra mostrar pra vocês a dimensão. Levei a Mangabinha, que é o nosso drone, mas, chegando ali na área da feira, eu vi na hora que não dava. Tinha urubu demais voando, em altura demais, e o céu estava cheio de bicho grande indo e vindo. Não vou arriscar o equipamento e, pior, não vou arriscar atrapalhar os bichos só por causa de uma filmagem. Então fechei tudo e fui pro lado da Estação das Docas, ali pertinho, onde o céu estava mais livre. De lá deu pra subir com calma e pegar a paisagem da orla, da baía e do conjunto do mercado sem colocar ninguém em risco.
Mesmo de longe dava pra entender o tamanho da coisa. Aquele casario antigo do Ver-o-Peso, a feira espalhada, a água da baía do lado, e os pontinhos pretos cruzando o ar. É uma cena que fica na cabeça. A gente filmou, tirou foto, e ficou em silêncio um tempo só olhando. Tem viagem que diverte, tem viagem que ensina. Essa aqui ensinou.
Dicas pra quem vai conhecer o Ver-o-Peso:
Vá de manhã cedo, que é quando a feira está viva e o movimento vale a pena.
Guarde bem seus pertences e respeite os bichos, não tente alimentar nem chegar perto demais dos urubus.
Se for usar drone, avalie o céu antes. Onde tem muito urubu voando, procure um ponto mais aberto e seguro, como a beira da Estação das Docas.
Aproveite pra comer e tomar um açaí de verdade por ali, e converse com o povo da feira, eles têm histórias boas.
O que eu trouxe de Belém
Eu saí de lá com foto bonita, com vídeo do drone, mas saí também com uma incômodo honesto. Os urubus do Ver-o-Peso não são o monstro da história. Eles só estão ocupando o espaço que o cuidado público deixou vazio. Enquanto for mais fácil deixar o bicho fazer a faxina do que tratar esgoto e organizar o lixo, eles vão continuar ali, em cima do telhado, na praça e no céu de Belém.
E aí eu te pergunto, que está lendo: você acha que os urubus do Ver-o-Peso são parte do charme de Belém ou são a prova de um descaso que já durou tempo demais? Me conta nos comentários o que você pensa, porque essa eu ainda não fechei na minha cabeça.
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