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Zezé de Boquim: quem é o cordelista mais famoso de Sergipe

·6 min de leitura·por Helio Pere
Zezé de Boquim: quem é o cordelista mais famoso de Sergipe

Em março de 2023 eu entrevistei um homem que aprendeu a ler decorando verso de cordel. Não foi em escola, não foi em cartilha. Foi ouvindo o pai contar história e repetindo rima até a letra fazer sentido. O nome dele é Zezé de Boquim, e a conversa que a gente teve em Aracaju me acompanha até hoje.

Eu cresci no Ceará, terra onde cordel não é peça de museu, é coisa viva. Então quando cruzei com um cordelista de verdade, com os folhetos dele ali na banca, parei tudo. Câmera ligada, e fui conversar. O que eu descobri depois, pesquisando a trajetória do homem, me mostrou que eu tinha entrevistado alguém bem maior do que eu imaginava naquele dia.

O que você vai descobrir nesse relato

Quem é o homem que trocou a roça pelos folhetos e virou referência do cordel em Sergipe, o detalhe da história dele que envolve uma carta que saiu do planeta Terra, e a minha opinião sincera sobre o que homenagem oficial faz e o que ela não faz por um artista popular. No final, te conto onde encontrar cordel de verdade em Aracaju.

De Lagarto pra Boquim, de Boquim pro apelido

Zezé nasceu no município de Lagarto, interior de Sergipe, mas foi Boquim que deu nome a ele. Foram 36 anos morando na cidade, tempo suficiente pra que ninguém mais o chamasse de outra coisa. Hoje ele vive em Aracaju, segundo registro da própria Assembleia Legislativa de Sergipe, que o homenageou em 2021 no Dia da Sergipanidade.

E aqui entra um detalhe que eu, investigando, achei curioso: as fontes oficiais nem batem no nome de batismo dele. O Governo de Sergipe registra José dos Santos. Outra publicação traz José Marciano dos Santos. Aí que tá a graça do artista popular: o apelido ficou maior que o documento.

A relação dele com o cordel começou na infância, ouvindo as histórias e as poesias que o pai declamava. Segundo o relato dele à Assembleia, aos 12 anos ele encontrou na feira um homem que vendia folheto lendo e cantando os versos. Pronto. Tava selado o destino do menino. Quem conhece feira de interior do Nordeste sabe exatamente a cena: o cordelista no meio do povo, o folheto pendurado no barbante, a voz puxando a rima. Eu vi isso a vida inteira no Ceará, e imagino o efeito que teve naquele menino de Lagarto.

1983: o ano em que ele largou a roça

Zezé trabalhou na agricultura antes de viver dos versos. Em declaração registrada pelo Tribunal de Justiça de Sergipe, em outubro de 2025, ele contou que largou a agricultura e começou no cordel em 1983, e que de lá pra cá não parou de produzir. O número impressiona: mais de 215 publicações. Pra você ter noção do ritmo, em 2021 a Assembleia falava em mais de 120 folhetos. Ou seja, o homem quase dobrou a produção em quatro anos, numa idade em que muita gente já pendurou as chuteiras.

Hoje ele ocupa a Cadeira número 1 da Academia Sergipana de Cordel. Cadeira número 1. Isso diz muito sobre o tamanho dele dentro do estado. E os prêmios que acumulou não ficaram só em Sergipe: chegaram a nível nacional.

Sobre o que ele escreve

Olha só a variedade: segundo o Governo de Sergipe, os cordéis dele passam por fé, valorização das mulheres e registro das histórias que ele mesmo viveu. Tem título sobre o apóstolo Paulo, tem cordel sobre Lampião, tem folheto cantando Aracaju. Do sertão bandido à pregação, tudo cabe na sextilha do homem.

Na homenagem de 2021, ele fez um cordel percorrendo as belezas de Sergipe cidade por cidade e soltou uma frase que resume o espírito da coisa: pra escrever tudo sobre as riquezas do estado, precisaria de "um livro do tamanho da Arca de Noé". Um cordelista que mede o assunto em Arca de Noé já ganhou minha simpatia no primeiro verso. É o tipo de imagem que nenhuma inteligência artificial do mundo inventa: isso nasce de quem cresceu ouvindo as Escrituras e vendo o povo na feira.

A carta que saiu do planeta

Agora o detalhe que pouca gente conhece, e que eu achei garimpando notícia de 2025. A neta dele, Elica, escreveu uma carta em forma de cordel, inspirada no avô, pra um projeto chamado Querido Planeta Terra. Foram 40 mil cartas escritas no total. Mil foram selecionadas pra viajar pelo espaço. A da neta do cordelista estava entre elas. Depois da viagem, a carta voltou e entrou pro acervo permanente do Museu da Gente Sergipana, em Aracaju.

Rapaz, para e pensa nisso: um homem que aprendeu a ler no folheto de feira viu a rima da família dele dar uma volta fora da Terra. Se alguém escrevesse esse enredo num cordel, ia parecer exagero de poeta. As obras do Criador têm dessas voltas que nenhum roteirista arriscaria.

Homenagem paga boleto?

Agora minha opinião, e ela é crítica mesmo. A literatura de cordel é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, reconhecida pelo Iphan em 2018. Zezé foi homenageado pela Assembleia, se apresentou no Memorial do Judiciário, recebe visitante e conta história na Biblioteca Pública Epifânio Dória. Tudo bonito, tudo merecido.

Mas quem sustenta o cordelista não é a placa na parede. É o folheto vendido na banca, um por um, na mão do povo. Aplauso institucional enche o coração e esvazia rapidinho; o barbante da banca é que segura a arte de pé no dia seguinte. Então minha posição é simples: se você cruzar com um cordelista em Aracaju, ou em qualquer canto desse Brasil, não tire só foto. Compre um folheto. Custa pouco e é o jeito mais direto de manter viva uma arte que atravessou séculos sem precisar de tomada nem de sinal de internet.

A entrevista

A conversa que eu tive com ele tá gravada e publicada no meu canal, junto com a série que fiz sobre o trabalho artesanal dele. Quem quiser ver o homem falando, com o sotaque e a pausa de quem declama há décadas, é só assistir: Entrevistei Zezé de Boquim, famoso cordelista de Aracaju.

Quer encontrar cordel de verdade em Aracaju? Olha isso aqui

A Biblioteca Pública Epifânio Dória, na Rua Dr. Leonardo Leite, bairro 13 de Julho, abriga a Sala de Cultura Popular Manoel de Almeida Filho, com um dos maiores acervos de cordel do estado, e o próprio Zezé já atuou ali recebendo visitantes e contando histórias. Grupos e escolas podem agendar visita. Zezé também é ativo nas redes sociais, então vale procurar pelo nome dele e acompanhar o trabalho. E a regra de ouro: achou banca de cordel na rua, pare dez minutos e leve um folheto. É lembrança de viagem que pesa nada na mala e vale mais que ímã de geladeira.

O verso que fica

Eu saí daquela conversa com folheto na mão e com a sensação boa de ter apertado a mão de um pedaço da cultura nordestina. O menino de Lagarto que aprendeu a ler na rima virou a Cadeira número 1 do cordel sergipano. E seguiu produzindo.

E você, já leu um cordel de verdade, daqueles de folheto pendurado no barbante? Qual foi o último?

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