Sete Quedas: a maior cachoeira do mundo era brasileira

O barulho dava pra ouvir a 25 quilômetros de distância. Pensa comigo: 25 quilômetros é meia hora de carro na estrada. Era essa a distância que o som das Sete Quedas percorria antes de chegar no ouvido de alguém. No sertão do Ceará, onde nasci, trovão desse tamanho só quando ia chover de verdade. E olhe lá.
No dia 27 de outubro de 1982, esse barulho parou. De uma vez. Moradores de Guaíra contam que o mais perturbador não foi ver a água subindo. Foi o silêncio que ficou no lugar de um trovão que tocava dia e noite havia gerações.
Antes de você continuar
Esse post é diferente dos meus relatos de viagem. Ele fala de um lugar do Paraná que não existe mais e que eu só conheci pelo que sobrou dele. Se você nunca ouviu falar do que aconteceu em Guaíra em 1982, vai entender por que essa cidade merece uma parada com mais atenção.
O tamanho da coisa
Sete Quedas não era uma cachoeira. Eram 19 saltos, agrupados em sete blocos, despejando em média 13,3 mil metros cúbicos de água por segundo no rio Paraná, segundo os registros da Prefeitura de Guaíra. Isso é praticamente o dobro das Cataratas do Niágara. O canal principal tinha 4 quilômetros de extensão e chegava a 170 metros de profundidade. Vários saltos passavam de 40 metros de altura.

E os registros da época apontam um detalhe que nenhuma outra cachoeira oferecia: dava pra caminhar por cima dela. Pontes pênseis cruzavam os saltos e o visitante atravessava com aquele mundo de água explodindo embaixo dos pés. Rapaz, deve ter sido uma das experiências mais fortes que o turismo brasileiro já ofereceu. As Cataratas do Iguaçu, impressionantes como são, carregam bem menos água que isso.
Guaíra no auge
Nos anos 1970, Guaíra chegou a ser apontada como a cidade mais visitada do Brasil, e é assim que a própria prefeitura registra essa fase até hoje. Uma cidade de uns 60 mil habitantes no oeste do Paraná disputando turista com Foz do Iguaçu, de igual pra igual. O roteiro clássico da época juntava as duas: via as Cataratas e subia pra ver as Sete Quedas. O comércio da cidade girava em torno disso.
Só que a sentença já estava assinada. Em 1966, no governo Castelo Branco, Brasil e Paraguai firmaram o acordo que abriu caminho pro aproveitamento energético do rio Paraná. O projeto virou a usina de Itaipu, construída entre 1975 e 1982, ali embaixo, a 150 quilômetros em linha reta. Pra usina funcionar, o rio precisava virar lago. E pro rio virar lago, as Sete Quedas precisavam sumir.
17 de janeiro de 1982
Quando o fim ficou próximo, o governo paranaense lançou uma campanha com o slogan "Visite antes que acabe". Funcionou demais. Milhares de pessoas por dia desciam pra Guaíra pra se despedir dos saltos, e as pontes pênseis começaram a receber muito mais gente do que aguentavam.
No dia 17 de janeiro de 1982, os cabos de aço da ponte Presidente Roosevelt, que dava acesso ao Salto 19, se romperam com a passarela cheia. Trinta e duas pessoas morreram nas águas do rio Paraná, embora registros da imprensa da época divirjam e alguns citem 30. Seis sobreviveram, salvas por pescadores de Guaíra que conheciam aquelas correntezas como ninguém. Mais de mil turistas ficaram ilhados entre os saltos e parte do resgate precisou ser feita de helicóptero. Relatos da época contam que um dos corpos só foi encontrado dias depois, já perto de Foz do Iguaçu, rio abaixo.
A investigação apontou duas causas: a manutenção das pontes tinha sido deixada de lado, sob a justificativa de que tudo aquilo seria inundado em breve, e o número de visitantes cresceu sem controle nenhum. O prefeito da época, Kurt Walter Hasper, apresentou ofícios mostrando que havia avisado os órgãos federais sobre o estado das estruturas, já que o parque era patrimônio da União. Um dos sobreviventes contou em entrevista, décadas depois, que nunca recebeu indenização. Nove meses depois, a água cobriu tudo, inclusive essa história.
Catorze dias
As comportas do canal de desvio de Itaipu foram fechadas em 13 de outubro de 1982. A previsão era o lago levar uns dois meses pra encher. Levou catorze dias. O rio estava em época de cheia e as usinas de cima abriram as comportas, empurrando ainda mais água. Em 27 de outubro estava tudo submerso. Nos primeiros dias, ainda dava pra ver as copas das árvores acima da linha d'água. O lago de Itaipu tem 1.350 quilômetros quadrados e vai de Foz do Iguaçu até Guaíra.
As histórias que ficaram no fundo do lago
Aí que tá: o lago não cobriu só pedra e água.
O poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu um poema de despedida às Sete Quedas que ocupou uma página inteira do Jornal do Brasil em 1982. Um dos maiores poetas do país usando espaço de jornal pra lamentar uma cachoeira. Não vou reproduzir o texto aqui por direitos autorais, mas procure por "Adeus a Sete Quedas". Vale a leitura.
Depois do alagamento, afloramentos de rocha perto de onde hoje passa a Ponte Ayrton Senna foram dinamitados. A justificativa oficial foi segurança da navegação no lago. A memória popular de Guaíra fala na atuação do Exército e diz que soldados teriam gravado os próprios nomes nas pedras antes das detonações. Procurei registro que provasse essa parte dos nomes e não encontrei. Fica a dúvida, e eu prefiro deixar ela aqui do que fingir certeza.

Em estiagens fortes, quando o nível do lago baixa muito, algumas pedras dos antigos saltos reaparecem na superfície. Cachoeira que some e volta conforme a seca. No meu Ceará a gente entende bem essa lógica, só que ao contrário: lá é a água que aparece de vez em quando.
Muito antes de turista, aquele trecho do rio já era passagem disputada. O site oficial de turismo de Guaíra registra a história do cacique Canindeyú, que controlava as trilhas em volta dos saltos na época da chegada dos europeus, e da Cidade Real do Guairá, povoação abandonada pela coroa espanhola no século XVII. São séculos de história concentrados naquele pedaço de rio.
E essa história não terminou bem pra quem vivia ali. O alagamento atingiu terras do povo Avá-Guarani, no oeste do Paraná. Em 2019, a Procuradoria-Geral da República pediu a condenação da União, do Estado do Paraná, da Funai, do Incra e da própria Itaipu Binacional pelos danos causados a esse povo. O processo é recente. A perda, não.
Os números de Itaipu impressionam de verdade: foi a maior hidrelétrica do mundo por 21 anos, até a chinesa Três Gargantas, e a própria empresa se apresenta como líder mundial em produção de energia renovável. Só que energia de hidrelétrica não sai de graça. Neste caso, a conta ambiental e humana ficou concentrada em Guaíra, que escreve em nota oficial, até hoje, que nunca foi devidamente recompensada. A conta não fecha bonita, mas é a conta que existe.
Minha passagem por Guaíra
Guaíra fica relativamente perto de Cascavel, onde eu moro, então pra mim ela nunca foi destino distante. Já passei por lá mais de uma vez: na ida pra Salto del Guairá, no Paraguai, que fica logo do outro lado do rio, e também no caminho pra Bonito, no Mato Grosso do Sul. Tenho um amigo morando na cidade e já dormi uma noite lá, recebido por um casal muito hospitaleiro.
Numa dessas passagens, subi o drone pra filmar a Ponte Ayrton Senna cruzando o rio Paraná. A imagem lá de cima engana: parece só um rio largo e calmo debaixo de uma ponte comprida. O que este post conta é justamente o que a lente não alcança.
Se você passar por Guaíra hoje, olha isso aqui
O Museu Municipal de Guaíra guarda a memória das Sete Quedas, e o site de turismo da prefeitura mantém um memorial online sobre os saltos. A Ponte Ayrton Senna, que liga o Paraná ao Mato Grosso do Sul, passa perto de onde ficavam as quedas e rende imagens bonitas de drone. Do outro lado da fronteira fica Salto del Guairá, no Paraguai, que dá pra incluir no mesmo bate e volta. E se pegar o lago em época de seca braba, repare na superfície: as pedras que aparecem ali são o que restou visível da maior cachoeira em volume de água que já se registrou.
Hoje, quem cruza a Ponte Ayrton Senna passa por cima de recorde mundial, de uma tragédia e de séculos de história indígena, tudo debaixo da mesma água parada. A maioria atravessa sem saber.
E você, já sabia que a maior cachoeira do mundo em volume de água ficava no Brasil? Conhece alguém que viu as Sete Quedas de perto antes de 1982? Conta aqui nos comentários, quero muito ler esses relatos.
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Fontes consultadas
Prefeitura Municipal de Guaíra: nota dos 35 anos da submersão e 42 anos sem as Sete Quedas. Turismo de Guaíra: memorial das Sete Quedas. Imprensa: Folha de Londrina sobre a tragédia da ponte, O Tempo sobre os 40 anos da inundação, Diário de Santa Maria com relato de sobrevivente e 360meridianos sobre o desaparecimento das quedas.
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