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Caldeirão de Santa Cruz: o massacre de 1937 no Cariri cearense

·9 min de leitura·por Helio Pere
Caldeirão de Santa Cruz: o massacre de 1937 no Cariri cearense

Descobri essa história rolando o feed do Facebook. Um card com foto antiga, letra garrafal e um vale seco no Ceará, dizendo que ali uma comunidade inteira tinha sido bombardeada pelo Exército em 1937.

Sou cearense. Rodei o Crato e Juazeiro do Norte, filmei a estrada entre as duas cidades, andei na feira, subi o Horto. Ninguém me falou nada. Nunca ouvi esse nome na escola, nem em conversa de família, nem em placa nenhuma. Fui atrás dos documentos pra entender o motivo.

O que eu fui encontrar

Passei dias conferindo jornal antigo, lei de tombamento e artigo de historiador. Boa parte do que aquele card dizia se confirma. Uma parte, não. E é justamente onde as versões se separam que a coisa fica mais incômoda pro lado de quem deu a ordem. Vai comigo até o fim que eu mostro onde está a rachadura.

Quem era o beato

José Lourenço Gomes da Silva era paraibano de Pilões de Dentro. Chegou a Juazeiro do Norte no fim do século XIX, quando a fama do Padre Cícero puxava gente do sertão inteiro, e virou homem de confiança do padre. Era analfabeto. Mesmo assim, era ele quem dividia as tarefas, ensinava agricultura e medicina popular.

Com apoio do Padre Cícero, arrendou terra no sítio Baixa Dantas, no município do Crato. Ali começou a receber quem chegava sem nada. A produção era dividida por igual, diferente das fazendas vizinhas. Em 1926, a terra foi vendida e o novo dono mandou todo mundo sair.

O boi Mansinho

Antes disso, em 1921, um boi entrou na história. As fontes divergem na origem: parte dos pesquisadores diz que o animal foi presente de Delmiro Gouveia ao Padre Cícero, entregue depois aos cuidados do beato; outra parte registra que o próprio padre presenteou José Lourenço com um touro da raça guzerá. O nome ficou: Boi Mansinho.

O cuidado que aquela gente tinha com o bicho virou boato de que estavam adorando um boi. Os desafetos do Padre Cícero espalharam a versão, o animal foi morto e o beato acabou preso, solto poucos dias depois. O boi virou desculpa.

A fartura na seca

Sem o Baixa Dantas, o Padre Cícero cedeu outra propriedade sua, a fazenda conhecida como Caldeirão dos Jesuítas, nas encostas da Chapada do Araripe. O tombamento estadual data a experiência comunitária entre 1928 e 1937. Outros estudos puxam o início pra 1926, quando o grupo chegou.

O sistema era simples de descrever e difícil de acreditar pra época. Trabalho de mutirão, tudo dividido conforme a necessidade de cada um, e o que sobrava era vendido pra comprar o que não se produzia ali, principalmente remédio e querosene. Produziam enxada, foice, machado, cereais, fruta, verdura, roupa em tear e panela. Sabiam usar técnicas simples de irrigação.

Aí veio a seca de 1932, uma das mais duras que o Nordeste enfrentou na primeira metade do século. Em vez de virar mais um foco de fome, o Caldeirão virou destino. A Secretaria do Meio Ambiente do Ceará e o Diário do Nordeste falam em 1.700 pessoas acolhidas. Outros levantamentos falam em cerca de duas mil. Pesquisadores que consultaram o jornal O Povo de 30 de setembro de 1936 citam mais de 400 casas e quase cinco mil moradores. Os números não fecham entre si, e vale registrar isso em vez de escolher o mais bonito.

Por que incomodou

Fartura no meio da seca é coisa que chama atenção. Os grandes proprietários da região viram mão de obra barata sumindo pra dentro de um lugar onde ninguém precisava de patrão. A imprensa começou a chamar aquela gente de fanática. Depois de 1935, com o levante comunista fresco na cabeça das autoridades, o rótulo mudou pra comunista, o que na prática era autorização pra qualquer coisa.

O historiador Francisco Régis Lopes Ramos, da UFC, que pesquisa o assunto desde o fim dos anos 1980, resume a lógica: a elite não entendeu o que estava acontecendo ali e enxergou o que sempre enxerga num ajuntamento de pobre, ou bandido, ou fanático, ou cangaceiro. Ele lembra também que os jornais da época elogiaram a ação policial.

Setembro de 1936

A primeira expedição saiu de Fortaleza com ordem de dissolver a comunidade. Casas queimadas, moagem destruída, roçado no chão, bens saqueados e depois leiloados. Moradores foram mantidos presos num curral por dias, esperando o beato aparecer. Ele tinha fugido antes, pra Serra do Araripe.

Não apreenderam arma nenhuma. Ninguém ali tinha arma.

A data exata dessa primeira investida também tem divergência. Régis Lopes batizou seu livro de história oral com o dia 11 de setembro de 1936. Outras reconstituições registram o cerco e a expulsão definitiva em novembro do mesmo ano. Provavelmente porque foi um processo, não um dia só.

Maio de 1937

Os sobreviventes se reagruparam meses depois na serra. Um deles, o beato Severino Tavares, tinha sido preso acusado falsamente de participar do levante de 1935 e voltou disposto a revidar. Em 10 de maio de 1937, um grupo emboscou uma tropa e matou um capitão, um sargento e mais gente.

A resposta veio no dia 11. Tropa por terra e avião por cima. O número oficial que circula é de 400 mortos. Pesquisadores que ouviram remanescentes trabalham com 700 a mil. A imprensa e o cinema já falaram em mais de dois mil. Ninguém nunca informou onde ficou a vala comum.

O avião

Aqui é onde o card do Facebook e os documentos se separam.

O escritor e pesquisador Eduardo Campos, em artigo publicado na revista da Academia Cearense de Letras em 1999, reuniu registros que apontam que o ataque de maio de 1937 não aconteceu no sítio Caldeirão, e sim nas imediações da Serra do Araripe, num lugar chamado Mata dos Cavalos. Ele cita uma reportagem do jornal O Povo de 7 de junho de 1982, segundo a qual o piloto encarregado lançou duas bombas na serra, com o resultado de uma vaca morta. E cita declaração do capitão Cordeiro Neto, publicada na Revista Policial de Fortaleza em 1937, sobre voos de metralhamento. O artigo está digitalizado e pode ser lido na íntegra.

Então existiu avião, existiu bomba e existiu metralhamento do ar, tudo em documento oficial da época. O que se discute é o local exato, a eficácia das bombas e quanto da matança foi feita no chão, cara a cara.

Trocar a arma não muda o morto. E continua valendo a pergunta que ninguém respondeu em quase noventa anos: onde estão os corpos?

O silêncio

Depois de 1937, o assunto sumiu. Em 1º de fevereiro de 1981, o Jornal do Brasil publicou um caderno especial chamado "A Chacina do Caldeirão" e usou a expressão conspiração do silêncio pra descrever o que tinha acontecido com aquela memória. Em 1987, o cineasta cratense Rosemberg Cariry lançou o documentário O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, com depoimentos de sobreviventes. Régis Lopes publicou "Caldeirão" pela Eduece em 1991 e, em 2016, o livro de história oral sobre o 11 de setembro de 1936.

O beato fugiu pra Exu, em Pernambuco, e reorganizou por lá uma comunidade menor, mais discreta. Morreu em 1946. Se você acompanhou os relatos sobre os campos de concentração do Ceará aqui do blog, vai reconhecer o mesmo método: o episódio some do papel e sobrevive só na boca de quem viu.

O que restou

O sítio foi tombado pelo Estado do Ceará com base na Lei nº 13.465, de 5 de maio de 2004, com aprovação no conselho estadual de patrimônio em 21 de março de 2005. Antes disso, a Lei nº 13.234, de 3 de julho de 2002, já tinha criado o dia estadual em memória da comunidade. Em dezembro de 2022, um decreto estadual criou o Parque Estadual Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, com 228,22 hectares, no distrito de Santa Fé, no Crato.

Do povoado sobraram a capelinha de Santo Inácio de Loyola, relativamente conservada, e algumas casas em ruínas. Uma reportagem de 2024 registrou três construções restauradas e um único morador no lugar, Raimundo Batista Lima, que chegou ali em 1991 e virou guia por conta própria. Até a distância varia conforme a fonte: a Secretaria da Cultura fala em cerca de 20 quilômetros do Crato, o Diário do Nordeste em 33, uma reportagem mais recente em 38.

Se você for até o Caldeirão, olha isso aqui
  • O acesso sai do Crato em direção à localidade de Ponta da Serra e depois vira estrada de chão, com bifurcações. Pergunte pelo Caldeirão do Beato, porque existe mais de um sítio com esse nome na região.
  • Carro baixo sofre. Prefira veículo mais alto e evite ir logo depois de chuva forte.
  • Não há comércio, restaurante nem posto no local. Leve água e combustível resolvido do Crato.
  • No terceiro domingo de setembro o lugar recebe romaria e enche de gente e de carro. Se quiser ver o sítio vazio e conversar com calma, escolha outra data.
  • Área de parque estadual e bem tombado. Confirme condições de visita com a Secretaria do Meio Ambiente do Ceará antes de subir.

Quem for até lá provavelmente vai passar o dia todo na estrada, e o Crato tem com o que ocupar o resto do tempo sem depender de romaria.

O que fazer no Crato no mesmo roteiro
  • Centro Cultural do Cariri Sérvulo Esmeraldo, na Avenida Joaquim Pinheiro Bezerra de Menezes. Mais de 50 mil metros quadrados, entrada gratuita, com exposições, cinema e área externa. Os dias e horários mudam conforme a programação, então confira antes no site oficial.
  • Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri, mantido pela URCA. Fósseis de mais de cem milhões de anos da Bacia do Araripe. Confirme o horário por telefone antes de pegar a estrada.
  • A feira do Crato vale a manhã inteira, principalmente pra quem quer ouvir o jeito de falar da região e ver o que se vende de raiz e de utilidade doméstica.
  • Geossítios do Geopark Araripe, reconhecido pela Unesco, com pontos dentro do próprio município e nas cidades vizinhas.

O que me pegou nessa história não foi o avião. Foi eu ter andado por aquelas ruas, filmado aquela estrada, comido na feira e voltado pra casa sem ouvir uma única vez o nome daquele lugar. Descobri por um card de rede social, oito mil quilômetros longe dali.

Deu certo, o silêncio. Por muito tempo, deu.

Você já esteve no Cariri e ouviu alguém falar do Caldeirão do beato José Lourenço, ou também passou por lá sem saber que aquilo existia?

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