Criança bebendo vinho na escola: a França que ninguém conta

Um card preto e branco no Threads, uma menina de uns três anos segurando um copo cheio e a frase em caixa alta: criança francesa tomava vinho no almoço da escola. O post tinha até trilha sonora, "Let's Groove" instrumental, do Earth, Wind & Fire. Foi o suficiente pra travar o dedo na tela.
Fui conferir. A história existe, tem circular oficial, tem ministro e tem médica reclamando na televisão francesa. E é bem mais estranha do que cabe num card de rede social.
Antes de rir dos franceses, segura essa
Tem circular oficial, tem propaganda de vinho bancada com aval do Estado e tem uma médica descrevendo, na televisão da época, o estado em que os meninos chegavam na sala de aula depois do almoço. E lá no fim dessa história sobra uma pergunta pro nosso lado do Atlântico, com direito a parreiral, estrada e conta pra pagar. Fica comigo até lá.
O que a França realmente permitia
A data que interessa é 1956. Uma circular do Ministério da Educação francês, de 8 de agosto daquele ano, determinou que o refeitório escolar não poderia servir bebida alcoólica a nenhuma criança com menos de catorze anos. Quem já tinha passado dessa idade continuou liberado, desde que com autorização dos pais e com bebida de até três graus: cerveja fraca, sidra, poiré (a sidra de pera) ou vinho cortado com água, limitado a um oitavo de litro por aluno.
Nada disso acabou de uma vez. O fim completo veio em outra circular, de 3 de setembro de 1981, quando a França declarou a água como única bebida recomendável à mesa e proibiu qualquer bebida alcoólica nas cantinas escolares, mesmo cortada com água. Foram vinte e cinco anos entre uma canetada e outra. As datas da legislação francesa sobre álcool estão reunidas nesta retrospectiva do Public Sénat.
E o tal meio litro por dia? Esse não saía da cozinha da escola. Segundo depoimento de época da médica Suzanne Serin, guardado no acervo da televisão francesa e recuperado pela imprensa de lá, muitos pais colocavam na cesta de merenda do filho a bebida que bem entendessem, e o mais comum era meio litro de vinho, sidra ou cerveja, conforme a região. O limite do refeitório valia pro copo servido ali dentro. O que saía de casa ficava por conta de cada família.
Por que ninguém achava aquilo estranho
Olha só o tamanho do buraco. No começo dos anos 1950, a França bebia algo entre 22 e 25 litros de álcool puro por habitante ao ano, dependendo da fonte que você consultar. Hoje o país está na casa dos onze, doze litros. O hábito atravessava o país inteiro, da oficina ao ministério, e a escola apenas repetia o que se via na mesa de casa.
Somam-se a isso três coisas. Água tratada e confiável na torneira ainda era promessa em boa parte do interior francês, e vinho cortado passava por alternativa segura. Depois vem a ciência da época: Louis Pasteur, em "Estudos sobre o vinho", de 1866, escreveu que o vinho podia ser considerado a mais sã e higiênica das bebidas. Um francês em 1950 não precisava de argumento melhor. E vem o dinheiro. Existia desde 1931 um comitê nacional de propaganda a favor do vinho, sob o guarda-chuva do Estado, e o historiador Stéphane Le Bras, citado pela imprensa francesa, afirma que as crianças estavam entre os alvos prioritários dessa propaganda.
Aqui vai leitura minha, e deixo marcado que é opinião: a parte que menos me convence é a da inocência. Acostumar o paladar da criança cedo é estratégia comercial, e havia excedente de vinho pra escoar, produtor pra sustentar e voto de região vinícola pra preservar. Ignorância explica o costume. Não explica a propaganda organizada.
As crianças ficavam bêbadas?
Um oitavo de litro de vinho cortado com água dá menos de um copo pequeno. Meio litro de vinho na cesta de merenda de um menino de dez anos já é outra conta. E o relato mais duro dessa história vem da mesma médica, Suzanne Serin: ela contou que, quando o diretor de uma escola se recusou a servir a bebida, os pais decidiram que os filhos beberiam o vinho antes de sair de casa. As crianças chegavam vermelhas, suando e passavam metade da manhã dormindo.
Hoje o entendimento é outro e não tem meio-termo: não existe dose segura de álcool para criança. O organismo em formação metaboliza pior, o efeito bate mais rápido e o prejuízo cognitivo não é hipótese. Levou décadas e muita briga política pra isso virar consenso.
O copo de leite que derrubou a garrafa
O nome que aparece em toda essa virada é Pierre Mendès France. Antes de chegar ao topo do governo, como deputado do departamento do Eure, ele testou em cantinas de Évreux uma bebida bem menos glamourosa: leite. Deu resultado na saúde dos alunos, e ele transformou aquilo em bandeira nacional. Boa parte das fontes francesas o aponta como o responsável direto pela circular de 1956, alguns dizendo que ele mesmo assinou o texto na condição de ministro de Estado. Registro a divergência porque ela existe: o documento saiu do Ministério da Educação, e o crédito varia conforme quem conta. A Slate francesa reconstituiu essa trajetória do vinho escolar com detalhe.
Tem ainda uma camada que quase ninguém comenta. O historiador Joseph Bohling, num artigo publicado em 2014 na revista French Politics, Culture & Society, defende que a política do leite de Mendès France tinha alvo bem maior do que o copo do aluno: o sistema de subsídios agrícolas e o lobby do álcool, dois pesos-pesados da política francesa da época. Trocar vinho por leite na merenda mexia no bolso de muita gente.
E o Brasil, bebe vinho?
Pouco, comparado com o pessoal de lá. Pelos dados da Organização Internacional da Vinha e do Vinho divulgados neste ano, o consumo brasileiro está em torno de 2,6 litros por habitante ao ano, contando gente acima de quinze anos. Portugal lidera o mundo com 62 litros. Rapaz, sessenta e dois contra dois e pouco. A mesma pesquisa apontou o Brasil como o país que mais cresceu em consumo em 2025, com alta de 41,9 por cento, na contramão do mundo, que recuou.
Aí que tá: esse número virou manchete e levou contestação técnica. A consultoria Ideal BI, especializada no mercado nacional, argumenta que a metodologia da OIV mistura abastecimento de mercado com consumo final, e calcula crescimento bem mais modesto. Os dois lados: a reportagem do jornal Público traz os números da OIV e a crítica à metodologia saiu na revista A Vindima.
Dentro do Brasil, a tradição tem endereço. Rio Grande do Sul e Santa Catarina lideram o consumo por habitante, seguidos por Espírito Santo e Distrito Federal, segundo a mesma Ideal BI. Em volume total, São Paulo domina por peso de população. A raiz disso tudo é a imigração italiana na serra gaúcha a partir de 1875, que fincou o parreiral no morro e o garrafão na mesa antes de existir rótulo bonito ou taça de cristal. O Rio Grande do Sul segue respondendo pela maior fatia da produção nacional.
Onde dá pra ver parreiral de perto
Eu não tomo vinho e não gosto do gosto. Mas parreiral em fileira no morro rende foto, rende estrada e rende passeio até pra quem viaja com criança, porque quase toda vinícola serve suco de uva integral. Quatro regiões que valem a viagem:
Vale dos Vinhedos, na serra gaúcha. O endereço mais conhecido do país, entre Bento Gonçalves e Garibaldi. Aeroporto mais próximo é o de Caxias do Sul, e de carro dá pra rodar o vale inteiro em dois dias. As degustações simples que os visitantes relatam nos últimos anos ficam na faixa de vinte a cinquenta reais por pessoa, com parte do valor devolvida em compra na loja. Experiência completa, com passeio pelos vinhedos e harmonização, passa fácil dos cem reais. Confirme no site oficial do Vale dos Vinhedos, porque valor e horário mudam por temporada.
Vale do São Francisco, entre Pernambuco e Bahia. Essa é a mais curiosa da lista. É apontada como a única região do mundo que colhe duas safras por ano, por causa do calor constante e da irrigação, o que significa que você pode ver videira em fases diferentes com poucos quilômetros de distância. A base costuma ser Petrolina, que tem aeroporto. Clima de sertão puro: sol de janeiro a dezembro, média de 27 graus.
São Joaquim, na serra catarinense. O oposto do sertão. Altitude alta, inverno de verdade, geada e uva que amadurece devagar. Quem sobe no meio do ano pega frio de rachar e paisagem de montanha, com Lages e Urubici na mesma região.
Caminho do Vinho, em São José dos Pinhais. Esse aqui é o mais barato de todos pra quem está no Paraná, porque fica a uns dezesseis quilômetros de Curitiba. São mais de trinta propriedades rurais na Colônia Mergulhão, com nove vinícolas familiares que produzem vinho colonial de uva Bordô e Niágara, além de sucos, queijos, geleias, pães e uma plantação de morango onde dá pra colher entre outubro e maio. Tem passeio de ônibus com guia local pra quem não quer dirigir. Programação e contatos no site oficial do Caminho do Vinho.
Se você for atrás de parreiral, olha isso aqui
- Degustação quase nunca está inclusa na visita. São dois valores separados na maioria das vinícolas
- Vinícola grande costuma aceitar visitante sem agendar. As pequenas e familiares, quase sempre não
- Quem não bebe paga menos e aproveita igual: peça a versão com suco de uva integral, que existe em quase todas
- Época de colheita muda tudo. Na serra gaúcha a vindima é entre janeiro e março; no Vale do São Francisco tem colheita duas vezes por ano
- Se for degustar, combine antes quem fica no volante. Lei seca não perdoa taça de cortesia
- Preço de garrafa na vinícola nem sempre é menor que no mercado. Compare antes de encher o porta-malas
Fico com uma coisa dessa pesquisa toda: um costume atravessa gerações parecendo normal só porque todo mundo faz, ainda mais quando tem gente organizada interessada em manter a normalidade de pé. Da primeira canetada até a última foram vinte e cinco anos. Tempo de uma criança daquele almoço virar pai e mandar o próprio filho pra escola.
E você, já visitou alguma dessas regiões de parreiral? Quanto pagou na degustação e qual delas você acha que vale mais a viagem?
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