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Por que não havia escrita no Brasil em 1500?

·7 min de leitura·por Helio Pere
Por que não havia escrita no Brasil em 1500?

No post anterior eu contei como se vivia numa aldeia antes de 1500: tinha regra, tinha casamento com acordo, tinha divisão de território, tinha punição pra quem passava do ponto. Tinha sociedade funcionando. Só que ficou uma pergunta entalada aqui comigo depois que terminei de escrever.

Se tinha tudo isso, por que nada estava escrito? Do outro lado do oceano, a essa altura, já se escrevia havia milhares de anos.

Eu comecei essa pesquisa achando outra coisa

Eu comecei essa pesquisa achando que ia terminar num lugar e terminei em outro completamente diferente. Tem um povo europeu que teve escrita e perdeu. Tem um império inteiro nas Américas que administrou milhões de pessoas sem alfabeto nenhum. E tem um livro impresso em 1595 que mudou o rumo da língua falada aqui na costa. Vem comigo até o fim que eu te mostro tudo.

A escrita foi inventada pra cobrar, não pra contar

Primeiro é preciso desmontar uma ideia que a escola planta na cabeça da gente: a de que escrever é o passo natural de quem fica inteligente o bastante. Os documentos mostram outra coisa. Os registros mais antigos da Suméria, lá na Mesopotâmia, são contabilidade seca. Tantos sacos de cevada entregues ao templo por fulano. Tantas ovelhas devidas por sicrano.

Imagem Ilustrativa: A escrita da Mesopotâmia nasceu em argila e serviu pra contabilidade, séculos antes de virar poesia

A escrita nasceu como ferramenta de administração e cobrança, numa sociedade que tinha estoque pra controlar, terra pra registrar e imposto pra receber. Onde não havia estoque acumulado, nem imposto, nem cartório, a escrita simplesmente não tinha função. E tecnologia sem função não pega. Rapaz, é a mesma lógica do fax: sumiu não porque ficou ruim, mas porque parou de resolver problema.

Escrever custava caro, e por muito tempo foi ofício de poucos

Tem outro detalhe que pesa. A escrita mais antiga não era um alfabeto de vinte e poucas letras. Era um sistema com centenas de sinais, que exigia anos de treinamento. Isso fazia do escriba um profissional, ligado a templo e palácio, mantido pelo excedente de comida que a agricultura de rio produzia.

Imagem ilustrativa. O escriba era um profissional treinado por anos, sustentado pelo excedente que a agricultura de rio produzia
O alfabeto mudou esse jogo, e mudou bastante. Com poucas letras, escrever ficou barato de aprender e escapou da corte. Um estudo da Universidade de Tel Aviv analisou 18 textos escritos em cacos de cerâmica achados num pequeno posto militar em Judá, de cerca de 600 antes de Cristo, e concluiu que ali havia pelo menos 12 mãos diferentes escrevendo, num lugar que abrigava umas 20 a 30 pessoas. Ou seja: soldado de fronteira anotando ordem de rotina. Alfabeto na mão de gente comum.

Só que esse é um estágio bem tardio da história. Entre a invenção da escrita na Mesopotâmia e a difusão do alfabeto correm milênios. Quem povoou as Américas veio muito antes desse capítulo.

Os gregos tiveram escrita e perderam

E aqui vem o caso que mais me pegou de surpresa na pesquisa. Os gregos escreviam num sistema chamado Linear B, usado nos palácios micênicos. Era escrita de administração de palácio, e só. Quando aqueles palácios ruíram, no fim da Idade do Bronze, a escrita ruiu junto com eles. A revista Classica, num artigo da pesquisadora Haiganuch Sarian, registra que na própria Grécia, por cerca de três séculos, não se conheceu forma alguma de escrita.

Três séculos de apagão, no meio do Mediterrâneo, com vizinho alfabetizado de todo lado. Os gregos só voltaram a escrever quando adotaram o alfabeto dos fenícios, séculos depois. Se um povo no centro do mundo antigo perde a escrita por falta de uso, imagina um grupo de famílias caminhando por gerações atrás de comida. Escriba não ia junto naquela viagem, porque escriba não servia pra nada ali. E habilidade que ninguém usa some em duas gerações.

Aqui faltava motivo, não faltava língua

Tem um engano comum nessa história, e é bom desfazer logo: os povos daqui não eram povos sem língua. Eram povos com línguas demais. O linguista Aryon Dall'Igna Rodrigues, uma das maiores autoridades brasileiras no assunto, estimou que por volta de 1500 se falavam cerca de 1,2 mil línguas diferentes no território que virou o Brasil. Hoje restam menos de duzentas.

E existia registro, só que sem papel. A memória coletiva guardava genealogia, acordo de território, história de guerra e receita de manejo da floresta. Os cantos e os rituais funcionavam como arquivo vivo, passado de geração pra geração por gente treinada pra lembrar. Funcionava bem enquanto o grupo continuasse existindo. Aí que tá o preço: quando o povo é dizimado, o arquivo morre junto, e não sobra caco de cerâmica pra arqueólogo achar depois.

Um império inteiro sem alfabeto

Olha só o caso que fecha o argumento. Os Incas administraram um dos maiores impérios do mundo, com censo populacional, controle de estoque e cobrança de tributo, sem alfabeto. Usavam os quipus: conjuntos de cordas com nós, em que a posição do nó, a cor do fio e o tipo de amarração carregavam a informação. Havia até um especialista encarregado disso, o quipucamayoc.

Os pesquisadores ainda discutem até onde ia esse sistema. Uns defendem que era registro numérico e mnemônico; outros suspeitam que certos quipus guardavam também narrativa, o que os aproximaria de uma escrita. Muitos foram destruídos na conquista espanhola, e boa parte do código se perdeu. Ninguém decifrou por completo até hoje.

E teve escrita plena nas Américas, sim: os Maias tinham um sistema completo, com o qual escreviam datas, história e política. Nasceu na Mesoamérica, exatamente onde havia cidade grande, templo, elite e tributo pra registrar. O mesmo ingrediente da Suméria, a milhares de quilômetros de distância.

A escrita chegou aqui junto com quem queria administrar

O desfecho dessa história tem data e endereço. Em 1595, foi impressa em Coimbra a Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil, escrita pelo jesuíta José de Anchieta, que vivia no Brasil desde 1553. É considerada a primeira gramática produzida a partir de uma língua daqui. O tupi ganhou letra, sintaxe e regra escrita, tudo em alfabeto latino, e não por iniciativa de quem falava a língua.

O objetivo estava declarado na própria licença de impressão: facilitar a instrução dos catecúmenos. A língua virou instrumento de administração colonial, e o que os jesuítas padronizaram no papel ficou conhecido como língua geral, uma versão do tupi que serviu de idioma de contato no Brasil por mais de dois séculos. Em 1758, o Diretório dos Índios, do Marquês de Pombal, impôs o português e proibiu o ensino das línguas indígenas.

Repara na simetria da coisa: a escrita chegou aqui pela mesma porta por onde tinha nascido na Suméria. A porta da administração e do controle.

O que eu concluí depois de tudo isso

Escrita é ferramenta, e ferramenta nasce onde tem serviço pra ela. Some onde não tem. De termômetro de inteligência ela não serve. Os povos daqui não escreviam pelo mesmo motivo que ninguém instala catraca em porteira de sítio: não havia fila pra controlar.

Isso me deixou com uma incômoda no fim da pesquisa, e eu não resolvi ela até agora. A memória oral daqueles povos guardava séculos de conhecimento sobre plantas, rios, solo e clima. Quando as epidemias e a colonização levaram os grupos, esse acervo inteiro foi junto, sem cópia. A gente perdeu uma biblioteca que nunca soube que existia, e não tem escavação que traga isso de volta.

Agora eu quero saber de você: na sua família, quantas histórias existem que ninguém nunca escreveu e que só sobrevivem porque alguém repete de vez em quando na mesa? Me conta nos comentários.

Pra quem quiser cavar mais fundo, os caminhos são estes

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