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Positivismo: a religião sem Deus que ajudou a derrubar o Império

·9 min de leitura·por Helio Pere
Positivismo: a religião sem Deus que ajudou a derrubar o Império

A frase mais exibida do Brasil não nasceu em quartel nem em gabinete de político. Ordem e Progresso, ali na faixa branca da bandeira, foi retirada do lema de uma corrente filosófica francesa que, no fim da vida do seu criador, virou religião. Com templo, sacerdote, culto e até calendário próprio.

Fui puxar esse fio e encontrei professor de matemática, cadetes insatisfeitos, abolicionistas, queda de imperador e uma igreja sem Deus no meio do Rio de Janeiro. Vamos por partes, que o assunto rende.

Antes de você continuar

Segura uma coisa: essa história tem mais reviravolta que muita novela. Tem filósofo francês inventando uma religião sem Deus, aula de matemática no meio de uma virada de regime, e um prédio no Rio que guarda tudo isso até hoje. Se você acha que conhece a bandeira do Brasil, leia até o final e me diga se eu exagerei.

O que é positivismo, afinal

O positivismo foi desenvolvido pelo francês Auguste Comte, que viveu entre 1798 e 1857. Segundo ele, a humanidade atravessaria três estágios de pensamento. No primeiro, o teológico, os acontecimentos seriam explicados pela ação de forças sobrenaturais. Depois viria o metafísico, das ideias abstratas. Por fim chegaria o estágio positivo, em que o conhecimento nasce da observação, da comparação e da busca por leis capazes de explicar os fenômenos. Nada de especulação. Fato, medição, lei científica.

Até aí, parece assunto de aula de filosofia. Só que Comte foi além.

 O francês Auguste Comte  (1798-1857) é considerado o fundador do positivismo.  

Aí que tá: na parte final da vida, ele organizou a chamada Religião da Humanidade. Sem Deus. No centro do culto estava o Grande Ser, nome dado à própria humanidade, o conjunto das pessoas do passado, do presente e do futuro. Pra mim, que acredito num Deus pessoal, esse é um dos capítulos mais estranhos da filosofia moderna. Mas aconteceu de verdade, com sacerdotes, rituais e liturgia. E o primeiro templo do mundo erguido conforme as regras deixadas por Comte foi construído aqui, no Rio de Janeiro. Chego lá.

O século que acreditava demais no progresso

O positivismo não nasceu sozinho. No livro 1889, o jornalista Laurentino Gomes lembra que as grandes ideologias do século dezenove partilhavam uma mesma aposta: a de que ciência, técnica e planejamento levariam a humanidade, quase que por trilho, a uma era de prosperidade. Era o tempo em que Nietzsche decretava que "Deus está morto" e em que Comte garantia que observar os fenômenos sociais e planejar as ações conduziria a um futuro melhor. O próprio Laurentino aponta o desfecho: o século vinte, com duas guerras mundiais, bomba atômica e genocídios em sequência, desmentiu boa parte dessa fé no progresso automático, sem Deus. Pra quem acredita no Criador, como eu, fica a lição de que trocar Deus pela ciência como objeto de adoração não tornou ninguém mais sábio.

Quando o positivismo chegou no Brasil Império

Um dos primeiros registros formais apontados pelos pesquisadores é de 5 de fevereiro de 1850: uma tese de doutorado em matemática defendida na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio, por Miguel Joaquim Pereira de Sá, já apoiada nas ideias de Comte. Ou seja, a porta de entrada não foi a filosofia. Foi a matemática.

Olha só o caminho: professores e alunos das escolas Militar e Politécnica tiveram contato com o Curso de Filosofia Positiva, obra em que Comte também tratava de matemática, e dali a curiosidade se espalhou. O nome de maior influência nesse ambiente foi Benjamin Constant Botelho de Magalhães, veterano da Guerra do Paraguai e professor de matemática, referência entre os cadetes. Registros biográficos contam que ele divulgava na Escola Militar os lemas mais conhecidos do positivismo, entre eles este: o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim. Guarde a frase. Ela ainda vai perder uma parte no caminho.

Quem aderiu

O movimento encontrou espaço principalmente entre militares, engenheiros, professores e jovens intelectuais. Isso não significa que todo militar fosse positivista, nem que todos lessem Comte do mesmo jeito. Mas o ambiente das escolas militares respirava aquele espírito cientificista, e pra parte daquela juventude um imperador hereditário parecia coisa de estágio ultrapassado da humanidade.

Do lado civil, em 1876 surgiu a Sociedade Positivista. Cinco anos depois, em 11 de maio de 1881, Miguel Lemos fundou no Rio a Igreja Positivista do Brasil, tendo Raimundo Teixeira Mendes como outra liderança central. Os dois tinham vinte e poucos anos. Pense num ponto de encontro: a igreja reunia republicanos e abolicionistas num país que ainda tinha escravidão e coroa. No Rio Grande do Sul, a doutrina marcou o Partido Republicano Rio-Grandense e o pensamento de Júlio de Castilhos, num positivismo político com características próprias. E o templo carioca guarda até história de família famosa: em 1903, acolheu a confirmação do casamento do então major Cândido Rondon, aquele das linhas telegráficas no sertão, positivista convicto.

Os principais ensinamentos do positivismo
  • Lei dos três estados: a humanidade passaria do estágio teológico (explicações sobrenaturais) pro metafísico (ideias abstratas) até chegar ao positivo, guiado pela ciência.
  • Só vale como conhecimento o que pode ser observado, medido e comprovado. Especulação sem base em fatos fica de fora.
  • A sociedade também deveria ser estudada como ciência. Foi Comte, aliás, quem criou a palavra "sociologia".
  • Progresso dentro da ordem: a sociedade deveria evoluir de forma organizada e planejada, sem revoluções violentas.
  • Viver para outrem: Comte pregava colocar o bem coletivo acima do interesse próprio, e cunhou outra palavra que usamos até hoje, "altruísmo".
  • Na fase final, a Religião da Humanidade: o culto ao Grande Ser, que é a própria humanidade, no lugar de Deus, com o lema completo "o amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim".

Benjamin Constant e a queda do Império

Benjamin Constant foi figura central do Clube Militar, fundado em 1887. Em 9 de novembro de 1889, presidiu a reunião em que os oficiais decidiram reagir contra o governo imperial e lhe deram liberdade pra buscar uma saída. Dizer que ali "se decidiu a queda da monarquia" arruma demais a história: o processo envolvia militares insatisfeitos, republicanos civis e a tarefa nada simples de convencer o marechal Deodoro da Fonseca a entrar no movimento.

Mas foi um passo decisivo. Seis dias depois, em 15 de novembro de 1889, o Império acabou.

A República nasce com lema de igreja

Com o Governo Provisório, os positivistas foram pro centro do palco. Benjamin Constant virou ministro, e a separação entre Igreja e Estado, que eles defendiam, saiu do papel. Em 19 de novembro de 1889 foi adotado o modelo da bandeira que usamos até hoje, concebido por Teixeira Mendes com a colaboração de Miguel Lemos e do astrônomo Manuel Pereira Reis, e desenhado pelo pintor Décio Villares. Existe até o esboço original, feito por Teixeira Mendes em papel quadriculado.

Na faixa branca entrou a versão enxuta do lema de Comte. Cortaram o começo e ficou Ordem e Progresso. Rapaz, de todas as palavras pra deixar de fora, foi logo o amor. 


Os homens da ciência que barraram a universidade

Aqui mora o detalhe que pouca gente conta. Parte dos positivistas valorizava a ciência, mas combatia o modelo de universidade, que consideravam elitista e produtora de saber ornamental. O próprio Teixeira Mendes escreveu uma série de artigos contra o projeto de universidade do Império, depois reunidos no folheto A Universidade. O historiador Antonio Paim mostra que essa oposição, somada a uma tradição que já vinha de Portugal, ajudou o Brasil a ficar só com escolas superiores isoladas ao longo do Império e das primeiras décadas da República. Não houve uma proibição formal de quarenta anos; houve resistência política e intelectual que atrasou a consolidação das universidades no país.

O mais curioso é que até dentro do positivismo essa briga foi reconhecida como erro. Émile Littré, discípulo de Comte que rejeitou a parte religiosa, admitiu que a campanha contra as universidades tinha se baseado num engano e prejudicado a instrução sem ajudar em nada a doutrina. Um movimento que pregava o progresso segurando a universidade. Fica registrado.

E ainda existe?

Existe, mas do tamanho de uma relíquia. A sede da Igreja Positivista do Brasil é o Templo da Humanidade, na Rua Benjamin Constant, número 74, no bairro da Glória, no Rio. Segundo a Brasiliana Fotográfica, portal ligado à Fundação Biblioteca Nacional, foi o primeiro templo positivista erguido no mundo conforme as orientações de Comte, construído entre 1891 e 1896 e inaugurado em primeiro de janeiro de 1897. Na fachada está a frase completa do lema. O prédio e os acervos são tombados, e parte da documentação recebeu o reconhecimento do programa Memória do Mundo da Unesco.

A situação física, porém, é dura. Depois da morte de Teixeira Mendes, em 1927, a igreja perdeu força, embora tenha mantido prédicas dominicais e comemorações cívicas ao longo do século vinte. Em 2009, parte do telhado desabou e a Defesa Civil interditou o prédio. Um projeto de revitalização começou em 2014. E em dezembro de 2024, após fiscalização do IPHAN, a visitação pública, as atividades internas e as pesquisas no acervo foram suspensas. O próprio instituto esclareceu que o imóvel não corre risco de desabamento e que o projeto executivo de restauração foi aprovado no fim de novembro de 2024. Ou seja: o templo espera, mais uma vez, pela obra.

Em Porto Alegre existe a Capela Positivista, inaugurada em 1928 e ainda ligada à Igreja Positivista do Brasil. Materiais da instituição citam também um núcleo em Curitiba, mas não encontrei confirmação segura de funcionamento ou visitação. Fica a dúvida.

Então a resposta honesta é esta: como movimento numeroso, o positivismo morreu faz tempo. Como instituição religiosa, sobrevive por um fio. Como marca, está em cada mastro de bandeira do Brasil.

Se quiser ir atrás dessa história
  • No Rio também existe o Museu Casa de Benjamin Constant, instalado na residência onde ele viveu com a família.
  • Leituras sobre o assunto: História do Positivismo no Brasil, de Ivan Lins, e 1889, de Laurentino Gomes.

A bandeira segue no alto. O templo segue fechado. E o amor segue fora do lema.

Agora me conta: você sabia que o Ordem e Progresso veio do lema de uma religião? E o Templo da Humanidade, já tinha ouvido falar dele?

Fontes consultadas

Brasiliana Fotográfica, da Fundação Biblioteca Nacional: O Templo da Humanidade, sede da Igreja Positivista do Brasil.

Site oficial do Templo da Humanidade: histórico da Igreja Positivista do Brasil e projeto de revitalização.

Antonio Paim: Por uma universidade no Rio de Janeiro.

Diário do Rio: IPHAN suspende atividades no Templo da Humanidade, dezembro de 2024.

Laurentino Gomes, 1889 (Globo Livros).

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