Positivismo: a religião sem Deus que ajudou a derrubar o Império

A frase mais exibida do Brasil não nasceu em quartel nem em gabinete de político. Ordem e Progresso, ali na faixa branca da bandeira, foi retirada do lema de uma corrente filosófica francesa que, no fim da vida do seu criador, virou religião. Com templo, sacerdote, culto e até calendário próprio.
Fui puxar esse fio e encontrei professor de matemática, cadetes insatisfeitos, abolicionistas, queda de imperador e uma igreja sem Deus no meio do Rio de Janeiro. Vamos por partes, que o assunto rende.
Antes de você continuar
Segura uma coisa: essa história tem mais reviravolta que muita novela. Tem filósofo francês inventando uma religião sem Deus, aula de matemática no meio de uma virada de regime, e um prédio no Rio que guarda tudo isso até hoje. Se você acha que conhece a bandeira do Brasil, leia até o final e me diga se eu exagerei.
O que é positivismo, afinal
O positivismo foi desenvolvido pelo francês Auguste Comte, que viveu entre 1798 e 1857. Segundo ele, a humanidade atravessaria três estágios de pensamento. No primeiro, o teológico, os acontecimentos seriam explicados pela ação de forças sobrenaturais. Depois viria o metafísico, das ideias abstratas. Por fim chegaria o estágio positivo, em que o conhecimento nasce da observação, da comparação e da busca por leis capazes de explicar os fenômenos. Nada de especulação. Fato, medição, lei científica.
Até aí, parece assunto de aula de filosofia. Só que Comte foi além.

Aí que tá: na parte final da vida, ele organizou a chamada Religião da Humanidade. Sem Deus. No centro do culto estava o Grande Ser, nome dado à própria humanidade, o conjunto das pessoas do passado, do presente e do futuro. Pra mim, que acredito num Deus pessoal, esse é um dos capítulos mais estranhos da filosofia moderna. Mas aconteceu de verdade, com sacerdotes, rituais e liturgia. E o primeiro templo do mundo erguido conforme as regras deixadas por Comte foi construído aqui, no Rio de Janeiro. Chego lá.
O século que acreditava demais no progresso
O positivismo não nasceu sozinho. No livro 1889, o jornalista Laurentino Gomes lembra que as grandes ideologias do século dezenove partilhavam uma mesma aposta: a de que ciência, técnica e planejamento levariam a humanidade, quase que por trilho, a uma era de prosperidade. Era o tempo em que Nietzsche decretava que "Deus está morto" e em que Comte garantia que observar os fenômenos sociais e planejar as ações conduziria a um futuro melhor. O próprio Laurentino aponta o desfecho: o século vinte, com duas guerras mundiais, bomba atômica e genocídios em sequência, desmentiu boa parte dessa fé no progresso automático, sem Deus. Pra quem acredita no Criador, como eu, fica a lição de que trocar Deus pela ciência como objeto de adoração não tornou ninguém mais sábio.
Quando o positivismo chegou no Brasil Império
Um dos primeiros registros formais apontados pelos pesquisadores é de 5 de fevereiro de 1850: uma tese de doutorado em matemática defendida na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio, por Miguel Joaquim Pereira de Sá, já apoiada nas ideias de Comte. Ou seja, a porta de entrada não foi a filosofia. Foi a matemática.
Olha só o caminho: professores e alunos das escolas Militar e Politécnica tiveram contato com o Curso de Filosofia Positiva, obra em que Comte também tratava de matemática, e dali a curiosidade se espalhou. O nome de maior influência nesse ambiente foi Benjamin Constant Botelho de Magalhães, veterano da Guerra do Paraguai e professor de matemática, referência entre os cadetes. Registros biográficos contam que ele divulgava na Escola Militar os lemas mais conhecidos do positivismo, entre eles este: o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim. Guarde a frase. Ela ainda vai perder uma parte no caminho.
Quem aderiu
O movimento encontrou espaço principalmente entre militares, engenheiros, professores e jovens intelectuais. Isso não significa que todo militar fosse positivista, nem que todos lessem Comte do mesmo jeito. Mas o ambiente das escolas militares respirava aquele espírito cientificista, e pra parte daquela juventude um imperador hereditário parecia coisa de estágio ultrapassado da humanidade.
Do lado civil, em 1876 surgiu a Sociedade Positivista. Cinco anos depois, em 11 de maio de 1881, Miguel Lemos fundou no Rio a Igreja Positivista do Brasil, tendo Raimundo Teixeira Mendes como outra liderança central. Os dois tinham vinte e poucos anos. Pense num ponto de encontro: a igreja reunia republicanos e abolicionistas num país que ainda tinha escravidão e coroa. No Rio Grande do Sul, a doutrina marcou o Partido Republicano Rio-Grandense e o pensamento de Júlio de Castilhos, num positivismo político com características próprias. E o templo carioca guarda até história de família famosa: em 1903, acolheu a confirmação do casamento do então major Cândido Rondon, aquele das linhas telegráficas no sertão, positivista convicto.
Os principais ensinamentos do positivismo
- Lei dos três estados: a humanidade passaria do estágio teológico (explicações sobrenaturais) pro metafísico (ideias abstratas) até chegar ao positivo, guiado pela ciência.
- Só vale como conhecimento o que pode ser observado, medido e comprovado. Especulação sem base em fatos fica de fora.
- A sociedade também deveria ser estudada como ciência. Foi Comte, aliás, quem criou a palavra "sociologia".
- Progresso dentro da ordem: a sociedade deveria evoluir de forma organizada e planejada, sem revoluções violentas.
- Viver para outrem: Comte pregava colocar o bem coletivo acima do interesse próprio, e cunhou outra palavra que usamos até hoje, "altruísmo".
- Na fase final, a Religião da Humanidade: o culto ao Grande Ser, que é a própria humanidade, no lugar de Deus, com o lema completo "o amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim".
Benjamin Constant e a queda do Império
Benjamin Constant foi figura central do Clube Militar, fundado em 1887. Em 9 de novembro de 1889, presidiu a reunião em que os oficiais decidiram reagir contra o governo imperial e lhe deram liberdade pra buscar uma saída. Dizer que ali "se decidiu a queda da monarquia" arruma demais a história: o processo envolvia militares insatisfeitos, republicanos civis e a tarefa nada simples de convencer o marechal Deodoro da Fonseca a entrar no movimento.
Mas foi um passo decisivo. Seis dias depois, em 15 de novembro de 1889, o Império acabou.
A República nasce com lema de igreja
Com o Governo Provisório, os positivistas foram pro centro do palco. Benjamin Constant virou ministro, e a separação entre Igreja e Estado, que eles defendiam, saiu do papel. Em 19 de novembro de 1889 foi adotado o modelo da bandeira que usamos até hoje, concebido por Teixeira Mendes com a colaboração de Miguel Lemos e do astrônomo Manuel Pereira Reis, e desenhado pelo pintor Décio Villares. Existe até o esboço original, feito por Teixeira Mendes em papel quadriculado.
Na faixa branca entrou a versão enxuta do lema de Comte. Cortaram o começo e ficou Ordem e Progresso. Rapaz, de todas as palavras pra deixar de fora, foi logo o amor.
Os homens da ciência que barraram a universidade
Aqui mora o detalhe que pouca gente conta. Parte dos positivistas valorizava a ciência, mas combatia o modelo de universidade, que consideravam elitista e produtora de saber ornamental. O próprio Teixeira Mendes escreveu uma série de artigos contra o projeto de universidade do Império, depois reunidos no folheto A Universidade. O historiador Antonio Paim mostra que essa oposição, somada a uma tradição que já vinha de Portugal, ajudou o Brasil a ficar só com escolas superiores isoladas ao longo do Império e das primeiras décadas da República. Não houve uma proibição formal de quarenta anos; houve resistência política e intelectual que atrasou a consolidação das universidades no país.
O mais curioso é que até dentro do positivismo essa briga foi reconhecida como erro. Émile Littré, discípulo de Comte que rejeitou a parte religiosa, admitiu que a campanha contra as universidades tinha se baseado num engano e prejudicado a instrução sem ajudar em nada a doutrina. Um movimento que pregava o progresso segurando a universidade. Fica registrado.
E ainda existe?
Existe, mas do tamanho de uma relíquia. A sede da Igreja Positivista do Brasil é o Templo da Humanidade, na Rua Benjamin Constant, número 74, no bairro da Glória, no Rio. Segundo a Brasiliana Fotográfica, portal ligado à Fundação Biblioteca Nacional, foi o primeiro templo positivista erguido no mundo conforme as orientações de Comte, construído entre 1891 e 1896 e inaugurado em primeiro de janeiro de 1897. Na fachada está a frase completa do lema. O prédio e os acervos são tombados, e parte da documentação recebeu o reconhecimento do programa Memória do Mundo da Unesco.
A situação física, porém, é dura. Depois da morte de Teixeira Mendes, em 1927, a igreja perdeu força, embora tenha mantido prédicas dominicais e comemorações cívicas ao longo do século vinte. Em 2009, parte do telhado desabou e a Defesa Civil interditou o prédio. Um projeto de revitalização começou em 2014. E em dezembro de 2024, após fiscalização do IPHAN, a visitação pública, as atividades internas e as pesquisas no acervo foram suspensas. O próprio instituto esclareceu que o imóvel não corre risco de desabamento e que o projeto executivo de restauração foi aprovado no fim de novembro de 2024. Ou seja: o templo espera, mais uma vez, pela obra.
Em Porto Alegre existe a Capela Positivista, inaugurada em 1928 e ainda ligada à Igreja Positivista do Brasil. Materiais da instituição citam também um núcleo em Curitiba, mas não encontrei confirmação segura de funcionamento ou visitação. Fica a dúvida.
Então a resposta honesta é esta: como movimento numeroso, o positivismo morreu faz tempo. Como instituição religiosa, sobrevive por um fio. Como marca, está em cada mastro de bandeira do Brasil.
Se quiser ir atrás dessa história
- No Rio também existe o Museu Casa de Benjamin Constant, instalado na residência onde ele viveu com a família.
- Leituras sobre o assunto: História do Positivismo no Brasil, de Ivan Lins, e 1889, de Laurentino Gomes.
A bandeira segue no alto. O templo segue fechado. E o amor segue fora do lema.
Agora me conta: você sabia que o Ordem e Progresso veio do lema de uma religião? E o Templo da Humanidade, já tinha ouvido falar dele?
Fontes consultadas
Brasiliana Fotográfica, da Fundação Biblioteca Nacional: O Templo da Humanidade, sede da Igreja Positivista do Brasil.
Site oficial do Templo da Humanidade: histórico da Igreja Positivista do Brasil e projeto de revitalização.
Antonio Paim: Por uma universidade no Rio de Janeiro.
Diário do Rio: IPHAN suspende atividades no Templo da Humanidade, dezembro de 2024.
Laurentino Gomes, 1889 (Globo Livros).
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