Patrocínio e Patos de Minas: passamos reto e descobri por quê

A gente não parou em nenhuma das duas. Passou reto por Patrocínio, passou reto por Patos de Minas, e o mais perto que cheguei dessas cidades foi a placa de acesso na beira da BR-365. Era 22 de dezembro, o destino do dia era Pirapora, e o relógio não estava pra brincadeira.
O problema de passar reto é que eu fico olhando pela janela imaginando o que tem lá dentro. Nesse trecho específico, tem bastante coisa.
Duas cidades que eu vi só de placa
Uma delas manda mais café pra fora que qualquer outro município do Brasilzão inteiro. A outra teve o nome trocado por decisão de governo e o povo brigou até recuperar. E tem um detalhe no nome dessa segunda cidade que me pegou de jeito quando eu fui pesquisar, por um motivo que é bem meu. Vem comigo até o fim que eu conto.
Quem dirigia era ela
Antes de tudo, o crédito de quem estava no volante. Minha digníssima dirigiu essa viagem praticamente inteira, de Cascavel até a Bahia e de volta. Eu ia do lado, gravando, anotando e mexendo em planilha. E foi justamente nesse pedaço entre Uberlândia e Patos de Minas que eu refiz as contas da viagem e mudei tudo.
O plano original era Chapada Diamantina, Caculé, Jacobina e descer pra Itacaré. Fiz a conta de combustível, de hospedagem e de quilometragem de volta, e vi que não fechava. Troquei o destino pra Porto Seguro ali mesmo, com o carro andando. Falei a decisão em voz alta dentro do carro e todo mundo achou boa. Ninguém reclamou.
Rapaz, decidir rota de viagem passando de raspão por duas cidades que eu não conhecia foi um jeito estranho de conhecer o Alto Paranaíba.
A picada de Goiás
Patrocínio existe por causa de uma estrada, o que já explica um pouco do meu carinho pelo assunto. Em 1736 a coroa portuguesa mandou abrir a chamada Picada de Goiás, um caminho oficial ligando Pitangui ao território goiano, e a região onde hoje fica a cidade estava bem no meio do traçado. Tropa que ia pra Goiás passava ali.
Em 1771 o Conde de Valadares, capitão-general da capitania de Minas Gerais, determinou ao capitão Inácio de Oliveira Campos que fizesse explorações na região. Dois anos depois, em 1773, ele montou a fazenda Brumado dos Pavões, um ponto de abastecimento pra quem cruzava aquele sertão. Foi o primeiro núcleo de habitação da área.
Aqui entra a parte que os textos comemorativos costumam mencionar de passagem. Antes de erguer a fazenda, Oliveira Campos destruiu quilombos no vale do Rio Dourados. Isso está registrado nos próprios materiais históricos da cidade, inclusive nos oficiais. A fundação de Patrocínio começa com gente sendo expulsa de terra que já ocupava, e acho justo dizer isso com todas as letras em vez de resumir tudo em "explorações e escavações".
A vila e o município de Nossa Senhora do Patrocínio foram criados pela Lei Provincial nº 171, de 23 de março de 1840, desmembrados de Araxá, com instalação em 7 de abril de 1842. Os foros de cidade vieram pela Lei Provincial nº 1.995, de 13 de novembro de 1873. Nos primeiros anos, aquele município era enorme: pegava o que hoje é Patos de Minas, Coromandel, Monte Carmelo, Serra do Salitre, Abadia dos Dourados, Lagoa Formosa e ia até perto da divisa de Goiás, onde fica Araguari. Ou seja, quando eu passei por Patos de Minas naquela tarde, eu ainda estava tecnicamente pisando em terra que um dia foi de Patrocínio. As duas cidades da placa são mãe e filha.
Terra de café
Hoje Patrocínio é o maior município produtor de café do Brasil e sede da federação dos cafeicultores do Cerrado. O café dessa região foi a primeira área cafeeira do país a receber Indicação de Procedência, em 2005, e depois Denominação de Origem, em 2013. Em outubro de 2023 lançaram ali a Rota do Café do Cerrado, com fazendas abertas pra visita.
Achei curioso o seguinte: a cidade nasceu como ponto de abastecimento de tropa e continua sendo ponto de abastecimento, só que agora de xícara alheia mundo afora. Duzentos e cinquenta anos fazendo a mesma coisa com nome diferente.
Tem outra coisa que eu não sabia. Patrocínio é considerada estância hidromineral por causa de fontes de água mineral sulfurosa no distrito de São João da Serra Negra. Cidade de café com água de cheiro forte. Eita coisa boa pra quem gosta de banho térmico.
A lagoa dos patos
Setenta e poucos quilômetros adiante veio Patos de Minas, e essa nasceu de água parada. A região tinha uma lagoa com fartura de patos silvestres, e o povoado que cresceu ali ficou conhecido como "os Patos" desde o tempo da picada pra Goiás. Nome de cidade brasileira raramente é poético. Geralmente é descritivo mesmo.
A origem formal está numa doação de terras feita em 1826 por Antônio Joaquim da Silva Guerra e sua mulher, Luzia Corrêa de Andrade, que deu início ao arraial de Santo Antônio da Beira do Paranaíba. Virou vila em 1866, foi instalada como vila em 1868 e recebeu categoria de cidade em 24 de maio de 1892, data que virou aniversário do município.
A fama de milho é mais recente do que parece. Na década de 1930 a instalação de uma grande processadora de tomates na região puxou o cultivo de milho doce, ervilha e tomate por ali. Daí veio a Festa Nacional do Milho, a Fenamilho, realizada desde 1959 na semana do aniversário da cidade, e que hoje é a maior festa agropecuária de Minas Gerais. A pamonha virou patrimônio cultural do município. Eu passei em dezembro, seis meses fora da festa, com o ar-condicionado no talo e a placa de acesso sumindo no retrovisor.
Guaratinga não colou
Em 1943 o governo do estado resolveu mudar o nome da cidade pra Guaratinga. O povo não gostou e reclamou até virar caso. Em 1945 o nome voltou a ser Patos, com o "de Minas" grudado no fim justamente pra diferenciar de Patos da Paraíba, que é município mais antigo.
Olha só onde isso me pegou. Eu estudei o antigo jardim da infância em Patos, na Paraíba, quando era menino. Aquela outra Patos, a mais velha, a que obrigou essa aqui a carregar sobrenome. Décadas depois eu estava passando de carro pela cidade que teve que se explicar por causa da cidade onde eu aprendi a segurar lápis. Descobri isso pesquisando, meses depois da viagem, sentado em casa. Se eu soubesse na hora, tinha pelo menos buzinado.
O que se vê da janela
O trecho é cerrado de altitude. A BR-365 corre por chapadas aplainadas do Alto Paranaíba, com terra vermelha, campos abertos e aquele horizonte largo que só existe em planalto. Patos de Minas fica entre 910 e 1.359 metros de altitude, o que ajuda a explicar por que o ar muda de textura mesmo com calor. Boa parte dessas chapadas está assentada sobre rochas vulcânicas antigas da formação Mata da Corda, coisa que eu só descobri depois e que dá outro peso àquela paisagem lisa. As obras do Criador ali não fazem escândalo. É tudo largo, seco e alto.
E é estrada de caminhão. Muito caminhão. A BR-365 é a ligação principal entre o Triângulo Mineiro e o Alto Paranaíba de um lado e o Norte de Minas do outro, e serve de rota pra carga que sai do interior de São Paulo rumo ao Nordeste. Quem pega esse trecho dirige com atenção redobrada o tempo todo.
Se você for parar em Patrocínio, olha isso aqui
- A Rota do Café do Cerrado tem fazendas que recebem visitantes. Agende antes pelo site oficial: rotadocafecerradomg.com.br
- A Casa da Cultura e Museu Histórico fica no prédio que já abrigou a prefeitura e a câmara. É a construção antiga mais interessante que sobrou da origem colonial da cidade.
- O distrito de São João da Serra Negra tem as fontes de água sulfurosa que dão à cidade o título de estância hidromineral.
- Se a ideia é ver lavoura cheia, evite o meio do ano, que é época de colheita e as fazendas ficam com a rotina apertada.
- Confira o que está aberto no portal de turismo do estado: minasgerais.com.br
Setenta quilômetros depois o assunto muda de grão.
E se a parada for em Patos de Minas
- O Parque do Mocambo é um horto florestal de uns 18 hectares, com trilha, pedalinho, parquinho e academia ao ar livre. Detalhes e horários no site da prefeitura: patosdeminas.mg.gov.br
- A Lagoa Grande fica ao lado do terminal rodoviário e tem pista de caminhada. É a área de lazer urbana mais usada da cidade.
- O Museu da Cidade funciona na antiga casa de Olegário Maciel e reúne acervo sobre a história regional.
- Se puder escolher a data, vá na última semana de maio, quando acontece a Fenamilho e a cidade inteira muda de ritmo.
- Prove a pamonha da cidade. É patrimônio cultural do município e não é força de expressão.
- Tem cobrança de pedágio na BR-365 entre Uberlândia e Patrocínio, com praças em Monte Carmelo e Indianópolis. Confira o valor atualizado antes de sair.
A gente chegou em Pirapora às duas e vinte da tarde, com o calor batendo forte no norte de Minas. Patrocínio e Patos de Minas ficaram pra trás como duas placas verdes e uma curiosidade que só foi virar texto muitos meses depois. Não é o pior jeito de conhecer um lugar. Mas está longe de ser o melhor.
Você já passou reto por alguma cidade e depois descobriu que tinha uma ligação pessoal com ela sem saber?
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