Pular para o conteúdo

Rio de Contas, na Bahia: a serra que testou meus freios

·7 min de leitura·por Helio Pere
Rio de Contas, na Bahia: a serra que testou meus freios

O cheiro forte chegou antes da placa da cidade. Na hora, associei às pastilhas de freio. A gente subia de Livramento de Nossa Senhora pra Rio de Contas com o sol já caindo, o motor 2.0 reclamando em cada curva e quase nenhum lugar seguro pra encostar. É uma subida contínua, daquelas que fazem o motorista esquecer a paisagem por alguns minutos e prestar atenção só no carro.

A culpa foi de um vendedor de frutas na rodoviária de Livramento. A gente tinha parado ali só pra usar o banheiro, juro. Ele apontou pra serra, disse que a vista lá em cima era diferente e falou de uma cachoeira no caminho. Era fim de tarde do dia 30 de dezembro, três pessoas moídas dentro do carro depois de um dia inteiro de estrada e, mesmo assim, eu virei o volante.

A gente subiu a serra quase no fim do dia, encontrou uma cidade histórica que merecia muito mais tempo e ainda foi atrás de um córrego sem saber direito onde estava entrando. O resultado foi pressa, freio quente, imagens feitas correndo e uma vontade danada de voltar com um roteiro menos atrapalhado.

Rio de Contas já estava na minha lista fazia tempo

Eu já tinha visto Rio de Contas em publicações de redes sociais algumas vezes. É aquele tipo de lugar que você salva, esquece e o aplicativo devolve seis meses depois como se estivesse apresentando uma grande novidade.

Quando percebi que a cidade estava logo ali, depois de subir a serra partindo de Livramento de Nossa Senhora, resolvi encarar. Minha digníssima achou uma boa ideia. A Marianny, minha sobrinha, provavelmente só queria saber se teria sinal de internet lá em cima.


O problema não era conhecer Rio de Contas. O problema era o horário.

A luz já estava baixando, ainda precisávamos encontrar hospedagem em outra cidade e eu não fazia ideia de quanto tempo levaríamos naquela subida. Mas, quando a curiosidade entra no carro, o planejamento costuma ir apertado no banco de trás.

A subida que não oferece descanso

Rapaz, aquela serra exige atenção. Não é uma estrada que me assustou por causa de precipícios sem proteção. O que pesou foi a inclinação. O carro sobe, continua subindo e quase não aparece aquele trecho plano onde o motorista consegue relaxar o pé e respirar um pouco.

📍 Rio de Contas

Abrir no Google MapsComo chegar

Quando percebi, estava usando marcha baixa e sentindo um cheiro forte no ar. Quem já dirigiu em serra sabe que cheiro estranho vindo do carro não combina com tranquilidade. A gente diminuiu o ritmo e continuou observando.

No meio do caminho surgiu uma parede enorme de pedra, com água descendo por ela. Era uma cachoeira bonita demais, mas não havia um ponto seguro pra parar naquele trecho. Gravamos e fotografamos com o carro andando, do jeito que deu.

O registro ficou tremido. A vontade de voltar, não.

Dicas para Visitar a Cidade
  • Fica bem do lado da cidade de Nossa Senhora do Livramento
  • Cuidado com a serra. Antes de subir, verifique os freios
  • Reserve tempo pra passear pelas ruas, visitar a cachoeira e tirar belas fotos.
  • Na subida dá pra avistar uma cachoeira que cai de uma montanha. Muito lindo. Fique atento pra ver.

A estrada também tinha aquela mudança de cenário que chama atenção. Livramento vai ficando lá embaixo, o relevo aperta e a serra começa a dominar tudo ao redor. Só que eu estava mais preocupado com o carro do que com a contemplação. Paisagem bonita é bom. Chegar com o freio funcionando é melhor ainda.

As ruas antigas no fim da tarde

Quando chegamos à cidade, a luz já estava curta e alaranjada. Andamos pelas ruas fotografando o casario antigo e tentando aproveitar os minutos que sobravam.

Rio de Contas cresceu durante o período da exploração do ouro, ainda no Brasil colonial, e conserva um centro histórico tombado. Só que eu não entrei em igreja, não visitei museu e quase não conversei com moradores. Não deu tempo.

Confesso que isso fica atravessado até hoje.

Uma coisa me chamou atenção logo de cara: Rio de Contas não parecia um cenário montado exclusivamente para receber turista. As construções antigas continuavam fazendo parte da vida normal da cidade. Tinha roupa no varal, cachorro descansando na porta e gente cuidando da rotina enquanto eu passava com a câmera na mão.

É justamente esse tipo de detalhe que faz uma cidade histórica parecer viva. O prédio antigo não está ali apenas pra fotografia. Tem gente morando, abrindo janela, entrando em casa e atravessando a rua como em qualquer outro lugar.

A gente ainda foi procurar uma cachoeira

Pelas informações que fomos juntando no caminho, pegamos uma estrada de terra pra conhecer uma cachoeira. Pelo menos foi assim que o lugar chegou até nós.

Quando chegamos, encontramos um córrego raso passando entre pedras, com bastante gente tomando banho. Havia uns quinze ou vinte carros estacionados na terra, cada um colocado de um jeito. Organização não era exatamente o ponto forte daquele estacionamento improvisado.

No nível do chão, o lugar parecia pequeno. Água correndo, pedras, famílias reunidas e pouco espaço para entender o conjunto.

Aí subi a Mangabinha, meu drone.

Lá de cima, a cena mudou. Apareceram três pequenas quedas d’água em sequência. Nenhuma era enorme e o lugar não parecia aquele cartão-postal preparado pra propaganda. Mesmo assim, o conjunto era bonito de um jeito que a câmera no chão não conseguia mostrar.

Eu queria gravar o pôr do sol sobre a serra, mas as nuvens fecharam tudo. Ficamos com a luz fraca, algumas imagens aéreas e uma pergunta que continua sem resposta: até hoje não sei o nome daquele córrego.

Talvez algum morador de Rio de Contas reconheça pelas imagens quando eu finalmente publicar o vídeo.

O material ainda está guardado

Saímos de Rio de Contas quase no escuro. Na descida, fui devagar, usando marcha reduzida e prestando atenção em qualquer mudança no carro. O cheiro não voltou, o que já ajudou bastante a diminuir a tensão.

Ainda seguimos até Paramirim, onde encontramos um hotel por R$ 140 para nós três. O check-in foi feito à mão, numa folha de caderno, por dois senhores. Nada de aplicativo, tablet ou confirmação automática. Nome, documento, caneta e pronto.

Naquele mesmo dia eu ainda tinha almoçado em Brumado por três reais. Foi um daqueles dias em que o dinheiro parece mudar de valor a cada parada.

De tudo que gravamos em Rio de Contas, quase nada foi publicado. As imagens continuam no acervo, esperando organização, edição e, sendo bem sincero, um pouco de coragem pra enfrentar mais uma montanha de arquivos.

Cartão de memória cheio parece riqueza até chegar a hora de editar.

O que eu faria diferente nessa visita

Eu não subiria novamente no fim da tarde. Rio de Contas merece pelo menos um dia inteiro, principalmente para caminhar pelo centro histórico com calma e conhecer melhor os arredores. Antes da viagem, também verificaria as condições dos freios, completaria o tanque em Livramento e planejava a descida usando marcha reduzida, sem manter o pedal do freio pressionado continuamente. Caso apareça cheiro forte, perda de eficiência ou qualquer comportamento estranho no carro, o certo é procurar um ponto seguro para parar. Na minha opinião, a cidade tem mais personalidade do que muitos lugares movimentados da Chapada justamente porque ainda conserva um ritmo de cidade de verdade.

A descida foi quase toda em silêncio, com a janela aberta e minha atenção presa no carro. Quando chegamos a Paramirim, eu estava com a camisa suada, o corpo cansado e o cartão de memória cheio de imagens que ainda não sabia como organizar.

Rio de Contas acabou ficando assim na minha lembrança: uma cidade conhecida depressa demais, no meio de uma serra que exigiu atenção e de um fim de tarde que terminou antes do nosso roteiro.

E você, se tivesse apenas duas horas em Rio de Contas antes de escurecer, ficaria fotografando as ruas do centro histórico ou correria atrás das quedas d’água? Eu tentei fazer os dois e não fiz nenhum direito.

Gostou? Compartilhe com quem vai curtir

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Sua opinião sobre o destino, uma dúvida, uma correção — tudo é bem-vindo.

Aparece junto do comentário.

Nunca aparece no site.

0/3000

Todo comentário passa por aprovação antes de aparecer.

Continue lendo sobre Bahia