Vikings na América: as provas da chegada antes de Colombo

Os vikings atravessaram o Atlântico e chegaram à América do Norte séculos antes de Cristóvão Colombo. Na adolescência, vi os vikings em filmes. Agora, uma reportagem da BBC publicada no G1 trouxe esses navegadores de volta ao meu interesse, com uma história que achei curiosa: o que aquelas viagens deixaram de prova no território que hoje pertence ao Canadá?
Existe um lugar onde essa presença pode ser examinada. Chama-se L’Anse aux Meadows, fica na ilha de Terra Nova e guarda vestígios de construções nórdicas. A investigação chegou até ao ano em que árvores foram cortadas por aqueles visitantes: 1021. Entre essa data e a viagem de Colombo, em 1492, há 471 anos.
Por trás das viagens
Quero seguir essa história pelos caminhos que os navegadores percorreram e pelas pistas encontradas em terra. Há bastante coisa entre os filmes da minha adolescência e o que se consegue demonstrar sobre essas expedições.
Um oceano por etapas
Rapaz, olhar o mapa faz diferença nessa história. As viagens nórdicas rumo ao oeste passaram pela Islândia e pela Groenlândia. A partir das comunidades estabelecidas nessas ilhas, os navegadores avançaram até terras da América do Norte. Eram trajetos feitos em etapas, com pontos de partida cada vez mais próximos da costa americana.
Erik, o Vermelho, aparece nos relatos da colonização nórdica da Groenlândia. Seu filho, Leif Eriksson, é associado às explorações mais a oeste. Boa parte das narrativas sobre essas viagens chegou até nós pelas sagas, histórias transmitidas oralmente e registradas por escrito séculos depois.
Nelas aparecem nomes como Helluland, associado à ilha de Baffin, e Markland, associado ao Labrador, conforme a interpretação histórica apresentada pelo Parks Canada. Vinland, ou Vinlândia, é a região descrita como terra das videiras. Esses nomes ajudam a acompanhar a narrativa, mas localizar todos os lugares mencionados com precisão continua sendo um problema histórico.
A apresentação das sagas pelo Parks Canada mostra expedições interessadas em recursos como madeira, bastante útil aos moradores da Groenlândia. Esse detalhe dá conteúdo às viagens: havia trabalho, transporte de carga e interesse no que poderia ser levado de volta.
O chão confirmou
Foi essa passagem do relato pra prova que fui conferir na pesquisa. Em 1960, o morador George Decker mostrou a Helge Ingstad elevações cobertas de vegetação em L’Anse aux Meadows. As escavações conduzidas por Helge e pela arqueóloga Anne Stine Ingstad revelaram vestígios de oito construções nórdicas.
Havia estruturas de madeira cobertas com blocos de turfa, material retirado do solo. O conjunto incluía moradias, oficinas e uma forja. A arquitetura se parecia com a empregada pelos nórdicos na Islândia e na Groenlândia, conforme descrevem o Parks Canada e a UNESCO.
Entre os objetos encontrados estavam um alfinete de bronze usado pra prender roupas, uma peça ligada à fiação e um fragmento de agulha de osso. Também apareceram resíduos de produção de ferro e rebites de embarcações. São vestígios de tarefas diárias, inclusive trabalho que provavelmente envolvia consertar barcos.
Os personagens dos filmes da minha adolescência entram aqui numa história com casas, ferramentas e manutenção. O sítio recebeu o reconhecimento de Patrimônio Mundial da UNESCO em 1978.
A data na madeira
Olha só o caminho usado pra chegar a 1021. Uma equipe liderada por Margot Kuitems analisou madeira encontrada em contexto arqueológico nórdico. Três peças, provenientes de árvores diferentes, tinham marcas de corte com ferramentas metálicas.
Os pesquisadores procuraram nos anéis de crescimento das árvores um aumento de carbono radioativo associado a um evento de radiação cósmica registrado em 993. Esse sinal funcionou como referência. A contagem dos anéis até a borda externa da madeira permitiu determinar o ano do corte.
As três árvores apontaram pra 1021. O estudo publicado na revista Nature saiu na internet em outubro de 2021 e na edição impressa de janeiro de 2022.
Na minha leitura dessa pesquisa, há uma distinção que precisa ficar clara: ela comprova atividade nórdica naquele ano. Não determina o ano da primeira chegada. Por isso, a expressão “quase cinco séculos antes de Colombo” funciona melhor do que transformar os quinhentos anos da manchete numa conta exata.
Leif estava ali?
Aqui, minha pesquisa esbarrou num limite: o Parks Canada admite que o grupo de L’Anse aux Meadows pode ter sido comandado por Leif, por Thorfinn Karlsefni ou por outro navegador. A presença nórdica está demonstrada. A identidade do comandante daquele acampamento permanece incerta.
As sagas preservam informações que podem ser confrontadas com a arqueologia, mas também contêm contradições e elementos literários. A Universidade de Groningen, responsável pela pesquisa de datação, faz essa ressalva. Não dá pra tratar cada episódio como se fosse um registro feito no momento dos acontecimentos.
Quem já estava lá
Quanto à disputa de prestígio entre Colombo e os vikings, minha reação foi direta: farinha do mesmo saco. Exploradores de vidas, ambos. É meu julgamento sobre a celebração desses personagens. Isso não torna suas expedições idênticas nem permite atribuir a todos os mesmos atos.
O que não cabe é contar a chegada europeia como se a América estivesse esperando alguém pra começar a existir. Segundo o Parks Canada, povos indígenas usaram a área de L’Anse aux Meadows há até seis mil anos. Foram identificadas ferramentas e acampamentos de diferentes grupos.
A mesma instituição distingue essa ocupação antiga dos encontros ocorridos em outras partes da região explorada pelos nórdicos. Ter vestígios indígenas e nórdicos num lugar não comprova, por si só, que os dois grupos conviveram ali ao mesmo tempo.
As sagas relatam contatos amistosos e violentos com habitantes da América. A evidência arqueológica desses encontros ainda é limitada. Reconhecer a capacidade de navegação dos visitantes não exige transformar suas ações em motivo de aplauso.
Por que foram embora?
Na reportagem que motivou esta pesquisa, a história se estende a possíveis viagens posteriores. É preciso separar essas referências da duração do acampamento: não sabemos exatamente por quanto tempo L’Anse aux Meadows foi usado, nem quantas expedições participaram desse movimento.
A ocupação parece ter sido breve. Os conflitos narrados nas sagas podem ter contribuído pra retirada, mas não estabelecem uma causa única comprovada. Cravar uma explicação resolveria a história no papel, sem resolver a falta de evidência.
A história vira roteiro
Ao levar a pesquisa pro lado do turismo, encontrei em L’Anse aux Meadows um endereço concreto pra conhecer essa história. O centro de visitantes reúne objetos das escavações, e o local tem reconstruções de edifícios nórdicos e atividades de interpretação histórica. Convém distinguir as reconstruções dos vestígios arqueológicos preservados.
Acontece que o sítio fica na extremidade norte da ilha de Terra Nova. O planejamento oficial da visita informa um percurso de 433 quilômetros desde Deer Lake. É um deslocamento que precisa entrar no roteiro, junto com o tempo pra conhecer o lugar.
Se você for fazer esse roteiro, olha isso aqui
- Reserve pelo menos três horas pra visita, conforme recomenda o Parks Canada.
- Confira a temporada antes de comprar a passagem. Em 2026, o funcionamento anunciado foi de 1º de junho a 2 de outubro, diariamente, das 9h às 17h. Essa temporada já terminou.
- Pra outra data, consulte os horários oficiais e a disponibilidade das atividades. O calendário de um ano não garante o seguinte.
- No centro de visitantes, confira o modelo tridimensional do acampamento e os vídeos sobre fundição de ferro descritos na programação oficial.
A história é curiosa. Meu interesse por aquelas viagens não virou vontade de escolher um herói.
Como os filmes que você viu apresentavam os vikings, e o que essa imagem deixava de fora?
Leia também
- Descobrimento do Brasil: a carta que ficou escondida 300 anos
- Marechal Rondon: o outro lado do herói que virou nome de estado
- Brasil proibido de fabricar: a lei que travou o país por 23 anos
- Brasil não precisava ser descoberto: o que a Carta de Caminha revela
- O Legado Amargo da Borracha: Como a Amazônia Foi Explorada e Abandonada
Assuntos
Mais lidos
- 1
ParanáOnde Comer Bem e Barato em Guaratuba: Conheça o Restaurante Brisa do Mar - 2
Breaking NewsConheça o Hotel em Acapulco Onde Foi Gravado Episódio do Chaves - 3
ParanáFiação subterrânea em Curitiba: o projeto que pode mudar a cidade - 4
MaranhãoComércio Popular São Luís: Mercado das Tulhas e Rua Grande - 5
Minas GeraisBR-251 entre Montes Claros e Salinas: serra, carreta e pouca parada
Comentários
Seja o primeiro a comentar
Sua opinião sobre o destino, uma dúvida, uma correção — tudo é bem-vindo.
Continue lendo sobre História
HistóriaUnião Ibérica: o que mudou no Brasil sob os reis da Espanha
Voltei ao Forte do Presépio no dia seguinte à primeira visita. Em 14 de agosto de 2024, tinha caminhado pelas muralhas;…
HistóriaBrasil Império: quanto custava receber um título de barão?
Estava lendo meu exemplar físico do livro 1889, de Laurentino Gomes, quando cheguei à parte sobre os títulos de…
HistóriaBrasil não precisava ser descoberto: o que a Carta de Caminha revela
No dia 26 de dezembro de 2025, eu estava em Porto Seguro gravando uma série de vídeos com um nome pomposo: o marco zero…
HistóriaMedicina no Brasil Império: barbeiro, sangria e dente arrancado
A primeira vez que eu tirei um dente foi em Caculé, na Bahia. Dente de leite ainda. Fui com muito medo e chorando, do…
