BR-251 entre Montes Claros e Salinas: serra, carreta e pouca parada

Saímos de Pirapora às quatro da manhã, ainda no escuro, com destino a Porto Seguro. Pegamos o sentido Montes Claros e de lá entramos na BR-251. Às dez e quarenta e seis a gente já tinha rodado uns 445 quilômetros mais ou menos, e a região de Salinas já ficava pra trás.
Quando o dia clareou de vez, a paisagem tinha mudado. Verde por todo lado, montanha verde subindo dos dois lados da pista e paredes de pedra cortadas rente à rodovia. Obras do Criador ali não faltam. O problema é que eu atravessei tudo aquilo sem saber o nome de quase nada.
O que eu descobri depois
Essa estrada tem um nome oficial que quase ninguém usa, curvas que os caminhoneiros batizaram por conta própria e uma história que começa exatamente na cidade onde a gente ia dormir naquela noite. Eu passei por cima de tudo isso a 80 por hora, sem fazer ideia. Fui atrás quando cheguei em casa. Vem comigo até o fim que eu conto.
A serra apertou
Depois de Montes Claros a estrada muda de humor. O relevo fecha, a pista começa a subir e descer, e aquelas paredes de pedra que eu vi da janela são os cortes abertos na serra pra rodovia passar. Fui pesquisar o nome disso e achei: é a Serra de Francisco Sá, que fica logo depois da cidade, sentido Salinas.
É um dos trechos mais citados quando se fala de acidente em rodovia federal em Minas. Pista simples, curva atrás de curva e caminhão o tempo todo. O número de veículos que passa por ali varia conforme a fonte: umas falam em dez mil caminhões por dia, outras em doze mil veículos no total. Nenhuma das duas contas cabe numa pista de mão dupla.
Tem uma coisa que me chamou atenção na pesquisa. Os trechos críticos têm nome de gente, não de engenheiro. Curva do Vento Lateral. Reta do Sabão. Serra de São Calixto. Esses apelidos nasceram na boca de quem roda ali todo dia e acabaram entrando até em documento oficial da concessão.
O café que não deu certo
A gente fez uma parada só no dia inteiro. Foi num lugar que a placa chamava de Cancela. Descemos pro banheiro e a ideia era tomar um café. O café não prestou. Ninguém tomou. Seguimos com fome, comendo bolacha, até achar um lugar de marmita na beira da rodovia, uns 25 reais cada. Almoçamos dentro do carro, debaixo de uma árvore.
Rapaz, foi só isso mesmo. Uma parada, um café ruim e duas marmitas.
Aí que tá: quando fui pesquisar, descobri que aquele povoado tem nome completo. É o distrito de Vale das Cancelas, e ele pertence a Grão Mogol. A sede do município fica a 114 quilômetros de lá, ligada pela própria BR-251 e pela MG-307. A população do distrito aparece como pouco mais de mil e seiscentos em um levantamento e cerca de dois mil e cem em outro, dependendo do ano.
Diamante ou amargor
Grão Mogol nasceu de garimpo de diamante no fim do século XVIII. Antes disso o povoado se chamava Serra de Santo Antônio do Itacambiraçu. Em 1839 já aparecia como Arraial da Serra de Grão Mogol, virou vila em 1840 e só recebeu categoria de cidade em 1858. Durante décadas foi a cidade mais importante do norte de Minas. A partir dos anos 1960 o garimpo entrou em decadência e a população começou a ir embora.
O nome tem duas explicações, e a própria Câmara Municipal registra as duas sem escolher uma. A primeira liga o nome ao Grande Mogol, um diamante indiano de 793 quilates descoberto em 1550, batizado em homenagem à dinastia que dominou boa parte do subcontinente. A segunda é mais áspera: os conflitos entre garimpeiros e tropas da Coroa foram tantos que o lugar ficou conhecido como "grande amargor", que no falar mineiro virou granmargor, depois grãomargó, até chegar em Grão Mogol.
Eu fico com a segunda. Nome de lugar quase sempre nasce do que aconteceu ali. E os dois cursos d'água que cortam a cidade se chamam Ribeirão do Inferno e Córrego das Mortes. Isso já diz muita coisa.
Brejo das Almas
A cidade de Francisco Sá, que dá nome à serra, não se chamava assim. Era Brejo das Almas, e antes disso São Gonçalo do Brejo das Almas. Virou município em 1923, desmembrado de Montes Claros e do próprio Grão Mogol. O nome atual é homenagem ao doutor Francisco de Sá, engenheiro nascido ali, que foi por muitos anos Ministro da Viação e Obras Públicas.
Aqui vale um aviso de quem pesquisou. A data da troca de nome não bate entre as fontes. O histórico da Câmara Municipal e o verbete do IBGE apontam 1938. A página da prefeitura e a Wikipédia falam em 1948. Não achei documento que resolvesse isso, então fica registrado do jeito que está.
O que ficou na minha cabeça foi outra coisa. A serra mais pesada dessa rodovia leva o nome de um ministro de transportes, um homem que passou a vida assentando trilho de estrada de ferro no norte de Minas. E ela continua de pista simples.
O sal de Salinas
Salinas ficou pra trás antes das onze da manhã e eu nem parei. Fui olhar depois de onde vinha o nome. Vem do sal mesmo. Um bandeirante chamado Antônio Luiz dos Passos, vindo da Bahia, encontrou jazidas de salgema às margens de um rio pouco caudaloso, hoje o rio Salinas. O sal era caro e escasso na época, e foi ele que segurou gente ali. O município só foi criado em 18 de dezembro de 1880, pela Lei Provincial nº 2.725, conforme a própria prefeitura. A data do primeiro povoamento varia entre as fontes: aparece como fim do século XVII, por volta de 1711 e também por volta de 1790.
Quem passou antes
Essa foi a parte que mais me pegou. Em 1553 ou 1554, uma expedição comandada pelo castelhano Francisco Bruza Espinosa, acompanhado do padre jesuíta Aspilcueta Navarro, saiu de Porto Seguro rumo ao interior. Foi a primeira a entrar nas terras do Jequitinhonha, segundo o histórico do IBGE. Subindo o rio, eles alcançaram justamente a serra que hoje se conhece como Grão Mogol.
Ou seja: quase quinhentos anos antes, um grupo de homens saiu de Porto Seguro a pé e chegou naquela serra. Eu fiz o caminho inverso, de carro, no mesmo dia, e cheguei em Porto Seguro à noite. A diferença é que eles levaram mais de um ano. Eu levei dezesseis horas e reclamei do café.
A conta da estrada
Isso aqui aconteceu depois da nossa viagem, mas muda a vida de quem for pegar essa estrada agora. A BR-251, no trecho entre Montes Claros e a BR-116, foi a leilão em março de 2026, junto com um pedaço da Rio-Bahia. A vencedora foi a Ecorodovias, com desconto de 19% sobre a tarifa básica de pedágio, num contrato de 30 anos e investimento previsto na casa dos 13 bilhões de reais.
O ponto que gerou reclamação na região é a duplicação. De aproximadamente 340 quilômetros de BR-251 concedidos, o edital prevê 42,3 quilômetros de pista dupla. A Serra de Francisco Sá está no pacote, mas com entrega prevista para o quinto ano de contrato. A Serra de Salinas fica só com faixas adicionais. As praças de pedágio previstas ficam em Francisco Sá, Grão Mogol, Salinas e Santa Cruz de Salinas, conforme a homologação divulgada pela AMAMS.
Traduzindo pro motorista: o pedágio chega antes da pista dupla.
Antes de pegar esse trecho, algumas coisas que eu gostaria de ter sabido:
Se você for pegar a BR-251 nesse trecho, olha isso aqui
- A Serra de Francisco Sá começa pouco depois de Montes Claros, no sentido Salinas. É o pedaço mais fechado do caminho
- Pista simples com fluxo pesado de carreta o dia inteiro. Ultrapassagem ali é aposta, não manobra
- Abasteça em Montes Claros ou em Salinas. No meio do caminho a estrutura é escassa
- Evite esse trecho à noite. Sem acostamento em vários pontos e com serra no meio, não compensa
- Com a concessão em andamento, confirme antes de viajar se as praças de pedágio já estão cobrando
E se você tiver tempo, que foi o que faltou pra gente, dá pra transformar a passagem em parada de verdade.
O que dá pra conhecer sem sair muito da rota
- A sede de Grão Mogol fica fora da BR-251, uns 114 km do distrito de Vale das Cancelas, por BR-251 e MG-307
- O casario antigo e as ruas de pedra da cidade são heranças diretas do tempo do garimpo de diamante
- Existe o Parque Estadual de Grão Mogol, com cerrado e cachoeiras, administrado pelo IEF. Confirme condições de visita direto com o órgão antes de sair de casa
- Salinas concentra a melhor estrutura de hospedagem e comércio de todo o trecho
- Ver outros relatos sobre estradas de Minas Gerais em heliopere.com
Foram dezesseis horas de estrada naquele dia até Porto Seguro. Uma parada só, um café que ninguém tomou e duas marmitas embaixo de uma árvore. O resto foi janela.
E você, já pegou a BR-251 entre Montes Claros e Salinas? Se pegou, me conta onde deu pra parar de verdade, porque a gente parou uma vez e não deu certo.
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