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Almenara já teve a maior praia de rio do Brasil e perdeu

·8 min de leitura·por Helio Pere
Almenara já teve a maior praia de rio do Brasil e perdeu

A placa de Almenara apareceu quando eu já tinha perdido a conta do tempo. O céu estava nublado, o carro coberto de poeira até o vidro de trás e a primeira coisa que enxerguei foi uma montanha enorme atrás da cidade, dessas que fazem o casario inteiro parecer pequeno. Pensei comigo: acabou. Sessenta quilômetros de chão batido e agora a gente volta pro asfalto.

Não acabou.

Uma cidade que eu atravessei sem saber o que tinha ali

Eu passei por Almenara com pressa, olho no relógio e o pé com medo do buraco seguinte. Só fui descobrir depois, já em casa, pesquisando, que aquela cidade guarda um nome de origem estranha, um rio maltratado e um recorde brasileiro que ela perdeu. Se você algum dia pensar em pegar essa rota rumo ao sul da Bahia, leia até o fim. Tem coisa aqui que o GPS não avisa.

Só de passagem

Era 23 de dezembro de 2025. A gente tinha saído de Pirapora às quatro da manhã com destino a Porto Seguro, almoçou marmita de vinte e cinco reais na beira da rodovia, debaixo de uma árvore, e depois de Pedra Azul entrou naquele trecho da BR-367 que virou o vilão do dia inteiro.

Em Almenara a gente não parou pra passear. Abastecemos o carro e seguimos. E olha, eu quase sempre anoto o valor do posto, é mania minha, rende comparativo de preço de combustível pelo Brasil. Esse eu não anotei. Estava tão focado em sair dali antes da chuva apertar que deixei passar.

O que ficou na cabeça foi a paisagem. A cidade fica às margens do rio Jequitinhonha, num relevo que sobe atrás dela, e com o céu fechado aquilo ganhou um tom meio cinza que combinava com o clima dentro do carro. Nós três calados, o limpador de para-brisa em pé, e uma montanha grande do lado de fora fazendo o serviço de paisagem enquanto ninguém tinha ânimo pra comentar.

O nome é árabe

Almenara vem do árabe al-manāra, que quer dizer farol ou torre de vigilância. Eu achei que fosse coincidência bonita, invenção de cartório. Não é. O nome combina exatamente com o motivo pelo qual a cidade existe.

Segundo o histórico oficial do município, a origem de Almenara é o Quartel da Vigia, um posto militar instalado em 1811 pelo alferes Julião Fernandes Leão, na margem direita do rio Jequitinhonha. A coroa portuguesa mandou levantar uma linha de postos ao longo do rio com uma missão bem específica: vigiar o contrabando de ouro e de pedras preciosas que descia pelas águas rumo ao litoral da Bahia. Os outros quartéis dessa mesma linha também viraram cidade. O Quartel de São Miguel é a atual Jequitinhonha, o de Água Branca é Joaíma e o do Salto Grande é Salto da Divisa. Guarde esse último nome, ele volta no fim do post.

O antigo distrito se emancipou de Jequitinhonha em 1938, e aí as fontes divergem um pouco. O IBGE e parte da bibliografia registram que o município nasceu com o nome de Vigia, pela lei estadual nº 58, de 12 de janeiro de 1938, e só depois passou a se chamar Almenara. Outras fontes locais falam da troca de nome já na emancipação. Prefiro deixar a divergência exposta a escolher a versão mais bonitinha.

A praia que o rio levou

Essa parte eu só descobri depois de voltar, e me deu um aperto. Almenara teve durante muito tempo a maior praia de rio do Brasil, chamada Praia da Saudade, formada nas margens do Jequitinhonha bem ali onde eu passei apressado.

Teve. O garimpo de ouro rio acima trabalhava com mercúrio, e a poluição foi cobrando a conta ao longo dos anos: o volume de água diminuiu, o curso mudou e a praia perdeu o que tinha de atrativo. Uma cidade do interior de Minas que era conhecida no Brasil inteiro por uma faixa de areia dentro de um rio, e que hoje é conhecida principalmente pelo trecho de estrada ruim que passa nela.

É lamentável. E digo com conhecimento de causa, porque em Pirapora, dois dias antes, eu tinha visto o São Francisco no centro da cidade praticamente sem água na praia principal. São dois rios diferentes, dois problemas com causas diferentes, mas a cena final é parecida demais pra ser coincidência.

Se você tiver mais calma do que eu tive, vale conhecer a cidade direito.

Se você for parar em Almenara, olha isso aqui
  • O Castelo, na Praça do Castelo, é o cartão postal da cidade. Um casarão com duas torres erguidas por Olindo de Miranda Souza pra cumprir uma promessa de casamento feita a Eunice. No piso da torre central ainda está escrito Eunice e Olindo. Confira as informações no portal de turismo de Minas Gerais
  • A cidade é o maior centro comercial do Baixo Jequitinhonha e atrai gente da região inteira, principalmente pelo comércio de móveis. Bom lugar pra observar o movimento local
  • Antes de contar com a beira do rio, pergunte na prefeitura como está o nível da água no período. Isso muda muito ao longo do ano
  • Abasteça ali. É a última cidade de porte antes do trecho complicado

Ainda faltava chão

Voltando pro carro. A gente saiu de Almenara com aquela sensação boa de missão cumprida, e a estrada de terra continuou. Mais sessenta quilômetros.

E aí que tá: dessa vez choveu. Trecho com lama, carro derrapando, poça de água do tamanho de um quintal. O medo real não era quebrar alguma coisa, era atolar. Atolar ali, com a noite chegando e o celular fazendo o que quer com o sinal, seria um problema de outra categoria. Minha digníssima não disse nada, e eu também não. Cada um segurando o próprio susto.

Somando tudo, foram cerca de 200 quilômetros de estrada de chão e quatro horas de viagem só nesse pedaço. O asfalto voltou em Salto da Divisa, aquela mesma cidade que começou como Quartel do Salto Grande. Quando a roda pegou piso firme de novo, o barulho dentro do carro mudou na hora. Ninguém comemorou. A gente só respirou.

Sete quilômetros

Chegando em casa fui atrás dos números, e eles explicam muita coisa. O trecho da BR-367 entre Salto da Divisa e Almenara, do km 0 ao km 61,6, é obra do Novo PAC com investimento previsto de R$ 409,5 milhões, executada pelo DNIT em parceria com o Exército. O balanço do próprio DNIT sobre 2025 informa que a autarquia priorizou um segmento de 15,32 quilômetros, dos quais sete quilômetros foram entregues no fim de 2025 e os 8,32 restantes teriam continuidade em 2026.

Sete quilômetros de sessenta e um. Foi exatamente esse o estado da estrada quando eu passei por lá, em dezembro daquele ano. Em março de 2026 o DNIT assinou outra ordem de serviço, dessa vez de R$ 198 milhões, pra revitalizar 132 quilômetros da mesma rodovia entre Almenara e Itaobim, com contrato de 880 dias de vigência. Ou seja, tem dinheiro, tem contrato, tem projeto e tem placa. O que falta é estrada.

Eu nunca imaginei encontrar rodovia federal em leito natural fora da região Norte. Encontrei, no meio de Minas Gerais, numa ligação que serve de corredor entre a BR-116 e a BR-101 e que a região espera há mais de cinquenta anos. Quem paga a conta desse atraso é o morador do Vale do Jequitinhonha, não o turista de fim de ano que passa uma vez na vida.

Se a sua rota passar por ali, vale planejar com cuidado.

Antes de pegar a BR-367 entre Almenara e Salto da Divisa
  • Cheque o andamento das obras no site do DNIT antes de sair de casa. O trecho asfaltado muda de ano pra ano
  • Aplicativo de rota mostra BR como se fosse tudo asfalto. Não confie só nisso, procure vídeo recente ou grupo de motoristas da região
  • Dia de chuva muda tudo. Se puder escolher a data, escolha
  • Calcule o dobro do tempo que o aplicativo indicar pra esse pedaço
  • A alternativa é subir pela BR-116 e passar por Vitória da Conquista. É mais volta, mas é asfalto. Consulte o fluxo de caminhões antes de decidir
  • Leve água e comida no carro. Entre uma cidade e outra o comércio é escasso

O que ficou

Almenara pra mim foi um posto de combustível, uma montanha grande atrás da cidade e um céu nublado. Nada mais. Foi assim que eu vivi, e é assim que eu escrevo. Só que a pesquisa depois me mostrou uma cidade que nasceu de um posto de vigia contra contrabando de ouro, que carrega um nome árabe de farol e que já teve a maior praia de rio do Brasil antes do garimpo estragar tudo. Passei ao lado de tudo isso a uns quarenta por hora, desviando de buraco.

Se eu voltar, e eu quero voltar, vai ser com tempo e com o carro limpo. As duas coisas me faltaram naquele dia.

E você, já atravessou alguma cidade correndo e só foi descobrir depois o que tinha de bom ali? Me conta qual foi nos comentários.


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