Sete Quedas: a tragédia que veio antes do desaparecimento

Aproveitamos uma abertura de céu azul e saímos de Cascavel pra gravar a história de umas cachoeiras que já não aparecem na paisagem. Depois de mais de uma semana de chuva, fomos a Guaíra, às margens do Rio Paraná, atrás das Sete Quedas. Levamos a câmera, subimos o drone e visitamos os lugares que guardam essa história.
Fomos em quatro: eu, minha mãe, minha esposa e minha sobrinha Marianny. O plano era contar como aquele conjunto de quedas desapareceu com a formação do lago de Itaipu. Só que chegar à cidade, ver as fotografias antigas e olhar o rio de perto acrescentou algumas coisas à gravação.
Fui procurar quem lembrava
Eu queria encontrar alguém que tivesse visto as quedas antes de elas sumirem. Entre uma gravação e outra, fomos puxando conversa. Havia gente com idade pra contar essa história, mas faltava um detalhe que idade nenhuma resolve sozinha.
Um acidente na ida
O trânsito correu bem no percurso, mas vimos o resultado de um acidente na entrada de Toledo. Havia um carro muito destruído, envolvido numa colisão com uma carreta. A rodovia naquele trecho é duplicada, e a cena mostrava a violência da batida.
O veículo ficou debaixo da carreta, com danos enormes. Infelizmente os dois ocupantes do veículo morreram na hora. Tirando esse acidente que encontramos no caminho, o deslocamento foi tranquilo.
As fotos no museu
Em Guaíra, visitamos o Museu Sete Quedas. O que mais me chamou atenção foram as fotografias das cachoeiras. A viagem tinha justamente esse assunto, e ali havia registros do lugar que a gente já não consegue filmar como ele era.

Fizemos imagens do Rio Paraná, inclusive do alto. Mas, pra mostrar as quedas na gravação, precisamos dos registros antigos.
O próprio prédio também faz parte do passado da cidade. Segundo a Prefeitura de Guaíra, ele foi construído no início do século XX pela Companhia Matte Larangeira e funcionou como sede administrativa da empresa. Foi restaurado em 2007 pra abrigar o museu.
O trem ficou
Também fomos ao local da locomotiva, na Praça Eurico Gaspar Dutra, em Vila Velha. Era outra parada ligada ao vídeo: a cidade guarda ali uma lembrança da ferrovia que fazia o transporte entre Guaíra e Porto Mendes.
Olha só: conforme o portal municipal de turismo, a locomotiva exposta é a Koppel nº 04, fabricada em 1910. A ferrovia foi construída pela Companhia Matte Larangeira em 1917 e transportava erva-mate, madeira e, depois, passageiros. A máquina foi desativada em 1961.
Na gravação, entraram o trem, o museu e o rio. Pra contar o desaparecimento das Sete Quedas, fomos atrás desses lugares onde ainda há alguma coisa pra mostrar ao visitante.
Três marmitas pra quatro
No almoço, gastamos um pouco mais do que naquele nosso costume de dividir uma marmita entre três. Dessa vez foram três marmitex de vinte e cinco reais cada, divididos entre quatro pessoas. O total ficou em setenta e cinco reais.
Rapaz, hoje a economia ganhou uma folga no almoço. Continuamos dividindo, só que com uma conta menos apertada de marmita por pessoa.
No combustível, conseguimos um preço melhor. Pagamos R$ 3,48 por litro de etanol em Guaíra, enquanto nos outros postos que vimos o valor estava em R$ 3,89. Esses foram os preços que encontramos em 17 de outubro de 2026.
Idade tinha. Lembrança, não
À beira do Rio Paraná, havia muita gente, música ao vivo e um movimento bem animado. Aproveitamos o céu aberto pra gravar e fazer as imagens de drone. Depois de tantos dias de chuva, era a oportunidade de registrar a cidade com aquele tempo.
Conversamos com algumas pessoas mais velhas procurando alguém que tivesse conhecido as Sete Quedas. As pessoas que encontramos tinham idade pra ter visto as cachoeiras, mas haviam se mudado pra Guaíra depois do desaparecimento delas.
Acontece que morar na cidade hoje e ter idade suficiente não significava estar aqui em 1982. Conversamos, mas não conseguimos o depoimento de quem presenciou o desaparecimento das quedas.
A ponte e o fechamento
Outro assunto dessa história é o acidente com uma das pontes usadas pelos visitantes. Ao conferir os registros, precisei separar os acontecimentos: a tragédia foi em janeiro de 1982; o fechamento definitivo do parque veio meses depois.
Em 17 de janeiro de 1982, uma ponte pênsil se rompeu e 32 pessoas morreram. A cronologia da própria Itaipu registra as mortes naquele mês. Tratava-se de uma ponte suspensa usada na visitação.
Na pesquisa, encontrei a história de João Lima Moraes, conhecido como João Mandi. Em reportagem de Eduardo Vessoni publicada pelo UOL em 2022, ele conta sua participação no salvamento. O texto registra seis pessoas resgatadas por ele.
O registro municipal situa o fechamento do Parque Nacional de Sete Quedas em 19 de setembro de 1982. Depois veio o enchimento do reservatório: começou em 13 de outubro e, no dia 27, as quedas estavam submersas, conforme a cronologia publicada pela prefeitura.
Estava escrito no projeto
Nas fotos do museu estava o cenário antigo; diante de nós, o rio de hoje. Pra entender a decisão que levou a essa mudança, há um documento que o leitor pode conferir: o Anexo B do Tratado de Itaipu, promulgado pelo Decreto nº 72.707, de 1973.
O texto original disponível na Câmara dos Deputados já previa que o reservatório se estenderia até incluir o Salto Grande de Sete Quedas. O alagamento fazia parte da descrição do projeto anos antes de acontecer.
Foi triste destruir um lugar daqueles pra gerar energia. Outras gerações poderiam visitar aquela paisagem.
Pra mim, Guaíra tinha condições de receber um turismo enorme com as Sete Quedas preservadas, talvez até superar as Cataratas do Iguaçu em visitação. Não temos como saber quantas pessoas viriam, mas eu vejo ali uma oportunidade de turismo que foi perdida.
Sobre a ideia de baixar o nível do lago pra mostrar as quedas, continuo achando muito difícil. Não conto com isso.
A cidade de hoje
Gostei do centro de Guaíra. Achei arrumadinho, limpo, organizado e com bastante comércio. Tem loja de todo tipo, e a impressão que tive foi de uma cidade com movimento, não de um lugar pequeno com pouca coisa funcionando.
Guaíra fica na divisa com Mato Grosso do Sul e na fronteira com o Paraguai, como informa o portal oficial de turismo. No nosso passeio, essa parte da cidade atual entrou junto com a história: comércio no centro, gente perto do rio e música ao vivo.
Pra quem pensa em fazer uma visita parecida, deixo alguns detalhes práticos que convém conferir antes de sair.
Se você for fazer esse roteiro, olha isso aqui
- O museu tem entrada gratuita. A página municipal e o cadastro Visite Museus informam atendimento das 8h às 12h, de segunda a sábado, mas divergem nos horários da tarde e de domingo. Confirme com a Cultura pelo (44) 3642-9998.
- O cadastro Visite Museus situa o museu na Rua Sete de Setembro, em frente à Praça Eurico Gaspar Dutra. Dá pra organizar as duas paradas no mesmo trecho do passeio.
- Se quiser comparar outros destinos da região, pode buscar no blog por oeste do Paraná antes de montar o roteiro.
As fotografias das quedas foram o que mais me chamou atenção no museu. Fiquei triste com o que se perdeu.
Que lembrança das Sete Quedas você guarda, por ter conhecido o lugar ou pelas histórias de alguém da sua família?
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