Vesúvio: a biblioteca carbonizada que um computador leu

Um vídeo de história no celular me segurou com uma frase dessas que não sai da cabeça: existe uma biblioteca de 2 mil anos que ninguém conseguia ler. Não era papo de internet. Era a Vila dos Papiros, em Herculano, quase 1.800 rolos de papiro que viraram carvão no ano 79 depois de Cristo e ficaram assim, inteiros e mudos, por mais de dezoito séculos.
Fui atrás pra conferir. Descobri que em junho deste ano a coisa mudou de patamar de vez. E descobri também que boa parte do que se conta por aí sobre esses papiros está errada, inclusive no vídeo que eu tinha acabado de assistir.
Tem um detalhe que quase ninguém conta
Essa história junta um vulcão, um estudante de 21 anos e um erro que se repete em quase toda reportagem sobre o assunto. Fica comigo até o fim, porque a parte mais interessante não é a que viralizou.
A cidade por baixo
Todo mundo conhece Pompeia. Herculano é a vizinha menos famosa, e foi ela que guardou o tesouro. Ficava a uns 7 quilômetros do Vesúvio, mais perto do vulcão que Pompeia, que estava a pouco mais de 9. O vídeo que eu assisti falava em 27 e 12 quilômetros. Está errado, e por bastante.
Outro erro que corre solto: dizer que Herculano foi coberta por lava. Não foi. A cidade foi soterrada por fluxos e nuvens piroclásticas, aquela mistura de gás, cinza e rocha em altíssima temperatura que desce a mais de 80 quilômetros por hora. É por causa dessa diferença que os papiros existem até hoje. O calor carbonizou os rolos sem queimá-los por completo, e a lama vulcânica selou tudo sem ar. Se fosse lava mesmo, não teria sobrado papel nenhum pra conversa.
A biblioteca estava numa casa grande, hoje chamada Vila dos Papiros, que os pesquisadores associam ao sogro de Júlio César. Um camponês italiano esbarrou nela no século XVIII. É a única biblioteca da Antiguidade clássica que chegou inteira até nós.
Dois séculos tentando
O problema é que carvão não se desenrola. Tentaram de tudo ao longo dos séculos: peso, produto químico, gás, até pulverização. Cada tentativa destruía o rolo pra revelar um pedaço. Muita coisa se perdeu assim, e por isso algumas centenas de rolos foram deixados fechados, esperando um método que não existia.
O rolo que virou notícia agora, chamado PHerc. 1667, é um exemplo triste disso. Tentaram abri-lo no século XIX, tentaram de novo em 1969 e mais uma vez nos anos oitenta. As camadas de fora foram destruídas nessas tentativas. Sobrou o miolo compacto, e foi só o miolo que os pesquisadores conseguiram ler.
A palavra roxa
Em março de 2023 nasceu o Vesuvius Challenge, uma competição aberta criada pelo professor Brent Seales, da Universidade de Kentucky, junto com Nat Friedman e Daniel Gross. A ideia era simples e meio doida: escanear os rolos fechados em tomografia de altíssima resolução e pagar quem conseguisse transformar aqueles voxels em letra legível. O prêmio principal era de 700 mil dólares.
Em outubro daquele ano saiu o primeiro resultado. Luke Farritor, estudante de ciência da computação de 21 anos da Universidade de Nebraska e estagiário da SpaceX, treinou um modelo de aprendizado de máquina em cima de uma textura craquelada que outro participante, o ex-físico Casey Handmer, tinha notado nas imagens. O modelo achou letras. As letras formaram uma palavra: ΠΟΡΦΥΡΑϹ, porphyras, púrpura. Levou 40 mil dólares por ela.
Parece pouco, uma palavra só. Mas era a prova de que dava pra fazer. Em fevereiro de 2024, o grande prêmio de 700 mil dólares foi entregue a três pessoas: Youssef Nader, egípcio doutorando em Berlim, o próprio Farritor e Julian Schilliger, estudante de robótica em Zurique. Eles leram cerca de 5% de um rolo, e o texto era do filósofo Filodemo, falando sobre música, comida e os prazeres da vida. A premiação está documentada no site oficial do desafio.
O rolo inteiro
No dia 25 de junho de 2026, na Biblioteca Nacional de Nápoles, o projeto anunciou o que ninguém dava como próximo: o PHerc. 1667 foi desenrolado virtualmente e lido do começo ao fim, sem ser aberto. São cerca de 1,4 metro de papiro e 22 colunas de grego, transcritas e revisadas por papirólogos. Seales disse na coletiva que um ano antes ninguém da equipe acreditaria nisso.
O conteúdo é um tratado de ética, com sinais fortes de ser obra estoica. Fala de natureza humana, impulso e progresso moral. E na última coluna preservada aparece um nome: Aristocreon, sobrinho e discípulo de Crisipo, um dos grandes nomes do estoicismo, que viveu no século III antes de Cristo. Ou seja, o texto vem de perto de 200 antes de Cristo. O anúncio completo, com as imagens, está aqui.
O time também recuperou o título de outro rolo ainda fechado, o PHerc. 172, guardado nas bibliotecas Bodleian, em Oxford. Os papirólogos leram o nome do autor, Filodemo, e o título da obra, Sobre os Vícios. Quem achou foram os alemães Marcel Roth e Micha Nowak, da Universidade de Würzburg. Somando tudo, o desafio já distribuiu mais de 1,8 milhão de dólares em prêmios.
Onde a história se embola
Aí que tá a parte que me irritou na pesquisa. Quase todo vídeo e boa parte das reportagens dizem que o Vesuvius Challenge descobriu a localização do túmulo de Platão. Não foi. Aquilo saiu de outro projeto, o GreekSchools, coordenado por Graziano Ranocchia, da Universidade de Pisa, apresentado em abril de 2024, usando imagem infravermelha e não tomografia de raios X.
A equipe de Pisa leu mais de mil palavras novas num papiro que traz a História da Academia, de Filodemo, um ganho de uns 30% em relação à última leitura, feita em 1991. Nesse texto aparece a indicação de que Platão foi enterrado num jardim reservado a ele dentro da Academia, perto do santuário das Musas. São dois esforços diferentes, com equipes, técnicas e financiamentos diferentes, que a imprensa junta num caldeirão só.
Já que citei Filodemo três vezes: ele não era da Palestina, como o vídeo dizia. Era de Gadara, cidade que hoje fica na Jordânia. Viveu entre mais ou menos 110 e 40 antes de Cristo, estudou em Atenas e foi morar na Itália. A biblioteca de Herculano é, em boa parte, a estante particular dele.
Se você quiser conferir isso por conta própria, olha aqui
- O site oficial do projeto é o scrollprize.org, e tem as imagens dos rolos desenrolados em resolução boa, de graça
- Os dados de tomografia são abertos. Quem programa pode baixar e testar os próprios métodos
- A maior parte dos papiros está na Biblioteca Nacional de Nápoles. O PHerc. 172 fica em Oxford e um dos rolos famosos está no Institut de France, em Paris
- Se ler em inglês te trava, jogue a página no tradutor do navegador. O conteúdo técnico continua compreensível
- Desconfie de qualquer texto que misture o túmulo de Platão com o Vesuvius Challenge. São projetos separados
Depois de ler tudo isso, fiquei um tempo pensando numa besteira.
Meus cadernos
Tenho poucos papéis velhos aqui em casa. Mas tenho alguns guardados: caderno, folhas soltas, letras de música que eu escrevia nos anos noventa. Papel comum, caneta comum, guardado em gaveta comum. Nada de vulcão, nada de síncrotron.
E eu não tenho a menor certeza de que aquilo vai estar legível daqui a cinquenta anos. Um rolo grego virou carvão, ficou 2 mil anos debaixo de rocha vulcânica e hoje um computador lê o que está escrito lá dentro sem abrir. Meus cadernos estão numa gaveta seca em Cascavel e a tinta já desbotou em algumas páginas. Vai entender.
Sobre o dinheiro gasto nisso, minha opinião é simples. Se essas autoridades e esses governos têm condição, desvendar o passado é importante. Se a história moderna já é importante, imagina a antiga. Cada rolo desse é um livro que ninguém leu desde antes de Cristo, e a gente estava a um método de distância de ler. Achei bem gasto.
Faltam centenas de rolos fechados. O método existe agora, mas ainda é lento, semiautomático e falha quando as camadas de papiro estão grudadas ou rasgadas. Ninguém sabe o que tem ali dentro. Pode ser mais filosofia epicurista, pode ser uma obra perdida que a gente só conhece pelo nome.
Continuo assistindo vídeo de história no celular. Só que agora, quando aparece um número redondo demais, eu paro e vou conferir.
E você, se pudesse escolher um único texto perdido da Antiguidade pra aparecer dentro de um desses rolos, qual seria?
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