Salinas, MG: a cidade do sal que virou capital da cachaça

Dez e quarenta e seis da manhã, uns 445 quilômetros rodados desde Pirapora. A gente tinha saído às quatro da madrugada e o trecho estava pesado de caminhão, um atrás do outro, aquela fila que só anda quando alguém arrisca. Salinas ficou ali do lado e eu passei por fora. Não parei.
O que deu pra ver foi a geografia em volta, o relevo mudando, a estrada e o movimento. Nada mais. Depois, já em casa, fui atrás da história do lugar e achei uma cidade que ficou rica por causa de sal, virou referência mundial em outro produto e hoje está sendo perfurada por causa de bateria de carro elétrico.
Passei direto e depois me arrependi
Passar por fora de uma cidade é coisa que a gente faz sem pensar duas vezes. Quando fui pesquisar Salinas, esperava achar quatro linhas de enciclopédia. Achei uma discussão que a cidade ainda não resolveu, uma estrada que só chegou lá nos anos 1920 e um produto que sustenta boa parte do que se ganha ali. Se você já pegou esse trecho da BR-251, vale ler até o fim.
O sal primeiro
Estive pesquisando sobre essa cidade e descobri que o nome não vem de praia. Vem de sal-gema achado no chão, às margens do rio que hoje se chama rio Salinas.
A região foi aberta pelo Caminho da Bahia, rota de gado e de gente que descia da Bahia pro sertão mineiro. Por volta de 1698, o bandeirante Antônio Luís dos Passos montou fazenda de criação às margens do rio Pardo e saiu batendo a região atrás de riqueza. Numa dessas incursões chegou nas jazidas de sal. Naquela época e naquele lugar, sal era dinheiro sério, porque gado sem sal não engorda e não existia caminhão pra trazer de canto nenhum. As primeiras casas apareceram por volta de 1711 e, em 1720, aquilo já era povoado da Comarca do Serro Frio.
A cidade nasceu de tempero de boi.
A data errada
Aí que tá. Salinas comemora aniversário no dia 4 de outubro. Quando fui conferir, a conta não fechou.
Pelo que está registrado na própria prefeitura, o município de Santo Antônio de Salinas foi criado pela Lei Provincial nº 2.725, de 18 de dezembro de 1880, desmembrado de Rio Pardo de Minas (algumas fontes trazem o número da lei como 2.275, e fiquei com o que a prefeitura registra). Em 19 de janeiro de 1883 tomaram posse os sete primeiros vereadores, e foi ali que a emancipação virou coisa real. A lei de 4 de outubro de 1887 apenas elevou a vila à condição de cidade.
O historiador salinense Roberto Santiago vem batendo nessa tecla há anos, defendendo que a data correta seria 18 de dezembro. Achei um erro fácil de corrigir e difícil de admitir. Outro detalhe que pouca gente sabe: o nome só encurtou pra Salinas em 7 de setembro de 1923.
A estrada demorou
Interessante que, quando pesquisei por Salinas, encontrei a data em que a estrada chegou. Em 1928, com os primeiros automóveis na cidade, começou a construção da ligação até Brejo das Almas, hoje Francisco Sá. Ficou pronta em 1929 e foi refeita no início dos anos 1930, com pagamento por quilômetro construído, num arranjo que também servia pra dar serviço a desempregado. O financiamento inicial saiu do bolso do coronel Idalino Ribeiro, chefe político local por mais de quarenta anos, reembolsado depois pelo governo do estado.
Rapaz, isso muda a leitura da viagem. O caminho que eu fiz de carro em algumas horas, com ar condicionado ligado, tem menos de cem anos de existência como estrada de rodagem. Hoje o trecho é a BR-251, que sai de Montes Claros e vai até o entroncamento com a BR-116, em Divisa Alegre, uns 325 quilômetros. A ANTT estuda conceder o trecho à iniciativa privada, com previsão de faixas adicionais e contornos rodoviários.
A conta da cachaça
Salinas é conhecida como capital da cachaça, e isso não é apelido de folheto. O título de Capital Nacional da Cachaça foi dado por lei federal, a 13.773, de dezembro de 2018. Antes disso, em 2012, a região já tinha conquistado o selo de Indicação Geográfica no INPI, que protege o modo de produzir e alcança municípios vizinhos como Taiobeiras, Rubelita, Novorizonte e Santa Cruz de Salinas.
Os números merecem um cuidado. Pelo Anuário da Cachaça de 2025, do Ministério da Agricultura, o município aparece com 20 estabelecimentos produtores legalizados e 292 rótulos registrados, primeiro lugar do país. O anuário do ano anterior trazia 24 propriedades e 202 rótulos. Os dados dançam de um ano pro outro conforme quem legaliza e quem registra rótulo novo, e preferi mostrar as duas contas em vez de escolher a mais bonita. Estimativas do próprio setor apontam que a cadeia responde por algo perto de um terço da economia local.
Todo mês de julho a cidade recebe o Festival Mundial da Cachaça, no Parque de Exposições Adail Melo, com entrada gratuita. A edição deste ano foi estimada em 45 mil visitantes e movimentação de R$ 45 a R$ 50 milhões na economia da cidade. Uma cidade de pouco mais de 40 mil habitantes, segundo o IBGE, recebendo mais gente do que tem morador em três dias.
E tem uma coisa que eu não sabia: o IFNMG campus Salinas oferece um curso superior de tecnologia em produção de cachaça, criado em 2005, com 30 vagas por ano. É o único do país oferecido por instituição pública nessa área.
De porta em porta
Fui atrás da história de uma das marcas mais conhecidas de lá e achei uma coisa que me pegou. O fundador tinha um empório em Belo Horizonte, vendendo produtos que trazia da região. A loja foi assaltada e o que sobrou intacto foram as garrafas de cachaça. Ele saiu vendendo aquilo de bar em bar, de porta em porta, e daí nasceu a marca, batizada com o nome da cidade natal dele.
Passei uma parte da minha juventude em Minas Gerais e vendi de porta em porta em Pirapora, junto com meu pai. Tenho amigo daquela época até hoje. Quem já bateu em porta pra vender reconhece essa história de longe.
Agora é lítio
A região do Jequitinhonha e do norte de Minas virou o que andam chamando de Vale do Lítio, e Salinas está no meio disso. A própria prefeitura publicou que o projeto local segue em fase de estudos de engenharia, com perfurações pra mapear o minério e a extração voltada principalmente pra demanda de Ásia, puxada por carro elétrico. Neste ano, o projeto de Salinas mudou de dono numa transação de US$ 37,5 milhões.
Aqui entra opinião minha, e deixo claro que é opinião. Salinas já viveu de sal, depois de cana, agora entra num ciclo de mineração. Ciclo é bom enquanto dura. O que sobra depois depende do que a cidade fizer com o dinheiro enquanto ele está passando. A operação está estimada pra segunda metade de 2027.
Se você for pegar esse trecho da BR-251, olha isso aqui
- O trecho entre Montes Claros e a BR-116 é rota pesada de caminhão. Ultrapassagem ali pede paciência e pista limpa.
- A serra de Francisco Sá e as curvas da região de Salinas são justamente os pontos citados nos projetos de melhoria da rodovia. Reduza.
- Saindo de Pirapora, Salinas fica por volta dos 445 quilômetros pelo caminho que fizemos. Encaixa bem como parada de almoço.
- Resolva combustível e banheiro nas cidades maiores. As distâncias entre uma e outra são grandes.
- Paramos em Cancela pra usar o banheiro e tomar um café. O café não prestou. Fica o aviso e a bolacha de reserva na mochila.
Agora, se você for mais esperto do que eu e resolver entrar na cidade em vez de passar reto, anotei algumas coisas que valem a parada.
O que dá pra fazer se você parar em Salinas
- Museu da Cachaça, na avenida Antônio Carlos, 1250. Foi instalado no terreno do antigo aeroporto, tem cerca de 13 mil metros quadrados e oito salas sobre a história do produto e da região. Entrada gratuita.
- Sobre o horário do museu eu preciso ser honesto: as fontes oficiais divergem bastante entre si. A publicação mais recente da prefeitura indica terça a sexta das 8h às 18h e sábado das 10h às 16h. Confirme antes pelo telefone (38) 3841-4800.
- Se puder escolher a data, julho concentra o Festival Mundial da Cachaça, no Parque de Exposições Adail Melo, com entrada gratuita. A cidade lota e a hospedagem some.
- O município tem barragens que a população usa como área de lazer, e o comércio de rua do centro rende uma boa caminhada de fim de tarde.
- Dia 13 de junho é feriado municipal em Salinas. Se sua parada cair nessa data, conte com boa parte do comércio fechado.
A única cachaça que encostou em mim nessa viagem inteira foi dias depois, em Arraial d'Ajuda. Tropecei, arranquei a cabeça do dedo, e a dona do restaurante onde a gente tinha almoçado jogou cachaça em cima e garantiu que sarava rápido. Não perguntei a procedência.
Salinas eu vi de longe, no meio de uma fila de caminhão, com a cabeça em chegar na Bahia antes de escurecer. Da próxima vez eu paro.
E você, já pegou esse trecho da BR-251 entre Montes Claros e a divisa com a Bahia? Parou em Salinas ou passou direto que nem eu?
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