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Festa do Morango de Cascavel: a 24ª edição com 200 boxes

·7 min de leitura·por Helio Pere
Festa do Morango de Cascavel: a 24ª edição com 200 boxes

Chegamos debaixo de chuva. Não era temporal, era aquela chuva miúda de agosto no Paraná que molha tudo e deixa o limpador de para-brisa trabalhando sem parar. Dez minutos de casa até o Centro de Convenções, o asfalto devolvendo o vermelho do semáforo, e nós três dentro do carro calculando quantos metros teríamos que correr do estacionamento até a porta.

Entrei e a primeira coisa que ouvi foi Fuscão Preto. Uma menina de chapéu, sentada num banco alto, tocando um violão cheio de assinaturas escritas no tampo, com o celular preso na haste do microfone. Nem tinha sacudido a água da jaqueta ainda. Estávamos com uma amiga da minha sobrinha Marianny, que morava em Laranjeiras do Sul, e ela chegou junto com a gente nesse momento exato.

Aqui, uma festa dessas não acontece toda semana

Quem morou no Nordeste ou em cidade com tradição de feira talvez não entenda por que tanta gente de Cascavel corre pra um galpão desses. Eu morei nos dois mundos e sei explicar. E olha, no meio dos boxes de morango tinha uma coisa andando pelo chão que eu não esperava encontrar de jeito nenhum.

Cascavel não tem tradição de feira

Essa é a parte que talvez explique o movimento todo. Aqui em Cascavel, feira é coisa rara. Acontece uma vez por semana, em dois ou três pontos da cidade, e acabou. Não tem mercado municipal fervendo de boxe aberto todo dia, como eu conheci lá na Bahia e no Ceará, onde você entra de manhã, de tarde, de sábado, e sempre tem gente vendendo alguma coisa.

Em Uberlândia, onde minha irmã mora, tem feira no mesmo bairro duas ou três vezes por semana. A cidade tem cultura de feira no sangue. Aqui não. Então quando aparece um galpão com mais de duzentos boxes, quatro dias, a cidade inteira se mexe. Não é só o morango que puxa. É a chance de andar entre barracas, coisa que a gente não tem no resto do ano.

De onde saiu essa festa

A história começa em 1997, como uma celebração comunitária dos moradores dos arredores do bairro Maria Luiza. Festa de bairro mesmo. Quase trinta anos depois, esta é a 24ª edição, e quem organiza continua sendo a Associação dos Moradores do Maria Luiza. A cidade cresceu em volta, o evento mudou de tamanho e de endereço, mas o comando ficou com o pessoal do bairro.

Segundo a Prefeitura de Cascavel, esta edição reúne mais de duzentos expositores e a expectativa era passar de setenta mil visitantes nos quatro dias. Parte do que é arrecadado com a venda dos estandes vai pra entidades assistenciais da cidade.

Tem também a parte que sustenta tudo isso, que é a produção mesmo. O Paraná é o terceiro maior produtor de morango do Brasil, com mais de trinta mil toneladas colhidas em 2023, segundo o Departamento de Economia Rural. Nas caixas expostas nas mesas dava pra ler as variedades: San Andreas, Albion. Fruta de gente que planta pra viver disso.

Quanto custa andar por lá

Vamos aos números, que é o que interessa antes de sair de casa. O morango de verdade, na barraca da fruta, estava numa placa amarela escrita à mão: caixa com quatro bandejas por quarenta e cinco reais, ou quinze reais a bandeja avulsa. Fazendo a conta, levando a caixa fechada cada bandeja sai por onze reais e vinte e cinco centavos.

Nas barracas de doce, sete reais a unidade, ou cinco por trinta reais, na Mister Doceria. O crepe estava quinze reais. O chopp de morango, dezoito reais o copo de quatrocentos e quarenta mililitros, com o pilsen a quinze e a água a cinco. Rapaz, olha a ironia: a bandeja de morango puro custava o mesmo que um crepe e menos que um copo de chopp. A fruta que dá nome à festa era o item mais barato do galpão.

Sobre o chopp de morango, eu experimentei e valeu. Dá pra sentir o malte por baixo, é cerveja mesmo, com o morango entrando suave por cima sem tomar conta. Quem espera doce vai se surpreender.

O sapoti que ficou no box

Numa banca de frutas eu dei de cara com sapoti. Sapoti, no oeste do Paraná. Fruta que eu comia lá em cima, no Nordeste, e que aqui aparece uma vez na vida. Provei na hora, matei a saudade, e aí perguntei o preço.

Cento e cinquenta reais o quilo. O rapaz viu minha cara e já emendou que pra mim fazia por oitenta. Fiz a conta rápido: umas seis frutinhas dariam cinquenta reais. Agradeci e segui andando. Minha digníssima também achou demais. Saudade tem limite, e o meu para em cinquenta reais por seis sapotis.

O que eu não esperava encontrar

No meio do corredor tinha um cachorro robô andando solto entre as pessoas. Agachei e estendi a mão, e o bicho veio na minha direção. Todo mundo em volta de celular na mão. Atrás, um menino de casaco azul assistia sentado numa cadeira de plástico, com cara de quem já tinha visto aquilo umas dez vezes.

Teve também o mascote da festa, um morango gigante que posa com qualquer um que chegue perto, e a apresentação de um grupo de dança formado por mulheres na faixa dos quarenta anos, não as jovenzinhas de sempre. Gente da comunidade subindo no palco. E ainda encontramos duas amigas nossas da família, duas Déboras, adolescentes, ali no meio do corredor sem ter combinado nada. Numa cidade sem feira, quando abre um galpão desses, todo mundo que você conhece está lá.

A sanfona pegou todo mundo

Às oito e pouco da noite subiu ao palco a dupla Hugo Cezar e Vermelho. Violão de um lado, sanfona do outro, o sanfoneiro sentado no banco com a Scandalli no colo e uma case vermelha encostada ao lado. Atrás deles, no telão, rodava o anúncio de uma loja de hidrobombas de Cascavel. Isso é festa de comunidade de verdade, com patrocinador local piscando no fundo enquanto a sanfona toca.

Às oito e vinte e seis eles emendaram uma música antiga, dessas que falam de andorinhas que voltam e de gente que volta junto. Aí que tá: eu olhei em volta e tinha gente chorando. Chorando mesmo, no meio de um galpão de feira, entre a barraca de crepe e o cachorro robô. Na minha opinião essa dupla canta igual ou melhor do que muita gente famosa que toca no rádio hoje. E estava ali, de graça, num palco de bairro. Quem quiser ouvir depois, os vídeos estão no canal Sanfoneiro Vermelho, no YouTube, e ele também está no Instagram e no TikTok como @sanfoneirovermelho.

Se você for na Festa do Morango, olha isso aqui
  • O endereço é o Centro de Convenções e Eventos, rua Fortunato Beber, 987, bairro Pacaembu
  • A entrada é gratuita em todos os dias
  • Neste ano a festa abriu às 17h no dia 6 e a partir das 9h nos dias 7, 8 e 9
  • Leve guarda-chuva. O galpão é coberto, mas do estacionamento até a porta você fica na chuva
  • O galpão dos doces e artesanato é bem mais calmo que a praça de alimentação. Se quiser conversar com quem produz, comece por ali
  • Fruta exótica na banca costuma sair caro. Pergunte o preço antes de pedir pra provar
  • Fique até o show da noite. As apresentações da tarde são boas, mas o palco enche mesmo depois das oito
  • Programação atualizada no perfil @festadomorangocascavel

Saímos faltando três minutos pras nove, com a sanfona ainda tocando lá dentro. Não levamos morango, não levamos sapoti, não levamos quase nada. Levamos a noite.

Numa cidade onde feira é coisa rara, quatro dias de galpão cheio fazem diferença. Ano que vem tem de novo, e eu vou.

E na sua cidade, tem tradição de feira ou é igual aqui, só de vez em quando? Me conta nos comentários como funciona aí.

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